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Lima Barreto e Falei com Da Vinci



O leitor proativo notará facilmente as referências que Eucajus faz ao livro Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá, de Lima Barreto, no capítulo 'Nas Gravações'. Uma pequena história que fala de contratos sociais e sua falta de humanidade para com os idosos. 

Mas, no trecho:
- Sr. Gonzaga, sou inventor.
- Inventor de...?
- Coisas para voar. 

Eucajus faz uma referência direta ao “O inventor e a aeronave”, alegoria que abre o livro Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá.

“O inventor e a aeronave” é um texto metalingüístico, que expõe dois níveis da criação: o da representação (de seres, idéias, emoções, coisas, paisagens etc.) e o da estruturação da narrativa, que se fundamenta na arte do fazer literário. 

Em Vida e Morte de M.J. a intervenção do eu autoral ocorre ora de modo flagrante, ora de modo mais discreto. Disfarçado na terceira pessoa, como no fragmento de “O inventor e a aeronave”, na primeira pessoa, quando se dissimula na voz do protagonista e, principalmente, na do narrador e pseudo-autor Augusto Machado. 

Lima Barreto, apresenta um eu que é manipulado por um sujeito que também se apresenta duplicado: um eu que se põe dentro da ficção, mediante a condição de autor implícito, e outro – o autor real – que cria a obra. Este embuste ficcional conserva o jogo dialético e a tensão entre a voz do autor e a voz do narrador, entre o enunciado e a enunciação. Através desse truque de autoria, o autor/real se exime de assumir a autoria do relato, pois inventa um narrador intermediário.

Eucajus busca o mesmo resultado por caminhos diferentes. O eu-autor que se manifesta logo no 'praefatio', declarando o processo da Imaginação Ativa. O eu-poeta que visivelmente se manifesta em belas metáforas e associações durante toda narrativa. E o autor-narrador-fictício, que se tornar real na ficção e ciente do seu papel ficcional, quase no final da narrativa, no capítulo 'Na Persona'. Ao  assumir sua inexistência no mundo real, o personagem passa existir como pseudo-autor de todo livro em si. Para ilustrar minhas palavras encontrei a imagem abaixo.



Essa é a questão que fica no final surpreendentemente coerente da narrativa em Falei com Da Vinci, no contexto, a realidade do personagem não existe na ficção, mas tem potência para existir como ficção no mundo real, deixando no leitor a sensação de ter participado de uma experimentação onde a linguagem funciona como um truque de mágica. 

Por essa razão, a aeronave de Lima Barreto voa somente para alguns leitores; os mesmos que a vêm pousar em Falei com Da Vinci. Ou, como diz o hermético personagem Mestre: "É dentro dos nossos olhos e ouvidos que a magia acontece!" 

Luciano Souza
Leitor Voluntária