Contador de Histórias em Ordem dos Fantasmas


Parece distante ao indivíduo contemporâneo o tempo em que às horas eram preenchidas pela reunião de grupos interessados em contar histórias. O filosofo Walter Benjamin, abordou uma série de questões que apontam para a natureza e a função do verdadeiro narrador e o desgaste deste ao longo dos tempos, mostrando que a arte de narrar estaria em declínio, diante da atual incapacidade humana de exprimir, ou melhor, de intercambiar experiências e de ouvir.

Inicialmente identificamos em Ordem dos Fantasmas algo positivo apontado por Benjamin, quando ele classifica as melhores narrativas escritas com as narrativas orais, o que nos leva a perceber que a imagem que ele tem do narrador é a do cidadão que conta histórias nascidas da própria experiência ou da experiência de outras pessoas. O narrador, como um artífice que entrelaça a sua experiência refletida e cultivada junto às vivências dos outros, necessita de interação e convívio. A partir dessas características o texto estabelece um confronto entre o objeto da narrativa e “a moral da história”, ou seja, produção de saberes.

Na abordagem feita por Benjamin, aparecem ainda às alterações na administração do tempo e o trabalho mecanizado como fatores comprometedores da produção de saberes, isto porque, as pessoas já não ficavam longas horas e sucessivos dias e meses produzindo artesanalmente seus objetos e, consequentemente, conversavam enquanto realizavam a lenta produção.

Benjamin volta ao tempo do ‘era uma vez’, isto é, ao conto de fadas. A reflexão proposta por ele sugere que tal narrativa libertava o homem do pesadelo mítico, já ensinava os personagens arquetípicos, como os animais sábios: é mais aconselhável enfrentar as forças do mundo mítico com astúcia e arrogância!

Quando o autor escreve:“- Isto é um sinal que deseja participar do social. Neste caso, que tipo de pecinha você vai ser? - De artesanato!”, na página 64 (ebook-pág.62), ele esta dizendo que comunga com Benjamin a respeito da arte de narrar, antes tão natural e nascida da experiência diária do artesão da linguagem, hoje tão problemática e acadêmica. O que decorria de uma prática imitativa, lenta e gradual, tornou-se uma ‘disciplina para ensinar a contar histórias’ - tirando a narrativa do âmbito da espontaneidade.

Portanto, é necessário pensar em Ordem dos Fantasmas como uma possibilidade de criação, onde o narrador se faz camaleão, se faz mensageiro de contextos, realidades e experiências, explorando varias possibilidades.


Professor José Vigilio