Escrevendo o Falado em Ordem dos Fantasmas




Ao transformar um fenômeno acústico em um fenômeno visual, a escrita permite um tipo diferente de manipulação dos sinais linguísticos, tipos diferentes de abstrações e novos tipos de conexões. Em 1970, muitos estudiosos da linguagem descobriram que existiam fenômenos linguísticos que deveriam ser estudados no contexto das unidades do discurso e não em sentenças isoladas.

Apesar de a escrita nos oferecer grandes oportunidades para análise, ela também impede o alcance dos fenômenos que estão sendo estudados e os corrompe com implicações ideológicas particulares, destacando que a escolha entre ortografia convencional e símbolos fonéticos também é importante para que a transcrição alcance o objetivo a que se destina. A vantagem de se usar a ortografia convencional, é que ela é acessível a um público muito maior. A desvantagem é que ela causa suposições prescritivas sobre como uma língua deveria ser e como é difícil representar o modo como à língua realmente é falada.

Sabemos que a imagem vale mais do que muitas palavras, a imagem é importante para a análise dos dados e por isso não deve ser descartada. De uma forma criativa, ao transcrever fenômeno acústico da palavra falada, Eucajus esta considerando letras tipográficas como imagens!

Gago, em seu artigo intitulado Questões de transcrição em Análise da Conversa, mostra que a transcrição dos dados orais é feita com base no modelo desenvolvido por Gail Jefferson, porém ressalta que este modelo possui algumas lacunas a serem preenchidas. Algumas dessas lacunas são de natureza teórico-metodológica, como o sistema gráfico a ser adotado, que precisa ser revisto e ampliado. Outras são de natureza prática como, por exemplo, o tipo de fonte a ser usada, ou a forma de se numerar e apresentar os dados.  Gago também sugere o uso predominante da grafia-padrão nas transcrições, devendo a grafia modificada ser utilizada somente nos casos em que houver demonstração de atenção seqüencial dos participantes para o sinal-não padrão e para os casos em que os fenômenos em atitude etnometodológica de expressão forem necessários. 

Portanto a analise da transcrição da fala nos diálogos de Ordem dos Fantasmas não deve ser considerada um erro ou licença poética, e sim um recurso para adicionar camadas ao entendimento da audição-leitura.  

Profª. Terezinha R. Vargas