Imagem e Interpretação



Vivemos indiscutivelmente numa era de informações associadas às imagens. Saber interpretar corretamente signos visuais tornou-se uma necessidade. Ordem dos Fantasmas é um livro que nos convida a pensar essa relação. 

Com a narrativa da experiência vivida pelo personagem no parque, Eucajus deseja nos mostrar que o olhar é um ato de escolha. A percepção de qualquer imagem é afetada pelo que sabemos ou pelo que acreditamos. Com isso, pode-se entender que toda imagem incorpora uma forma de ver. 

Ao dissecar A Última Ceia e Mona Lisa de Leonardo da Vinci, o autor convida o leitor a se posicionar criticamente frente às questões e interpretações contidas no texto.

Quando se trabalha com a análise de uma imagem, alguns procedimentos são necessários para que não se perca a intencionalidade de articulação com a narrativa. Ao planejar a história, Eucajus pensou nas reações que tal articulação provocaria nos leitores: recordação, reconhecimento, associação, comparação e levantamento de hipóteses. Para escrever o texto dentro dessa perspectiva, ele se valeu de uma série de fontes que incluem desde documentos oficiais, até notícias na imprensa; e das mídias mais avançadas da atualidade.

Segundo Peter Burke, as imagens não devem ser consideradas simples reflexos de suas épocas e lugares, mas sim extensões dos contextos sociais em que elas foram produzidas e, como tal, devem ser submetidas a uma minuciosa análise, principalmente de seus conteúdos subjetivos. É preciso que se obtenha o máximo possível de informação sobre qualquer objeto iconográfico produzido, é preciso interrogá-lo, realizar uma leitura crítica, perceber quais são as intenções contidas no mesmo: como e quando foi produzido, sua finalidade, seus significados e valores para a sociedade que o produziu. Entre esses conceitos integrados na interpretação de Eucajus, podemos incluir também os seguintes:

O documento não é qualquer coisa que fica por conta do passado, é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de força que aí detinham o poder. (...) O documento é uma coisa que fica, que dura, o testemunho, o ensinamento (...) o que ele traz deve ser em primeiro lugar analisado desmistificando-lhe o seu significado aparente. O documento é monumento. (Jacque LE GOFF, 1984, p.102-103).

...ver não é o mesmo que olhar, assim como ouvir não é igual a escutar. Ver apenas envolve o esforço de abrir os olhos; olhar significa abrir a mente e usar o intelecto. Olhar uma pintura é como partir para uma viagem – uma viagem com muitas possibilidades, incluindo o entusiasmo de compartilhar a visão de outra época. A melhor maneira de viajar é com um guia que o ajude enquanto você se familiariza com o novo ambiente, e que lhe mostre coisas que do contrário passariam despercebidas. (Robert Cumming, 1996).

Muitas obras usam extensamente uma linguagem de simbolismo e alegoria. Os objetos reconhecíveis, mesmo pintados em detalhe, não representam apenas eles mesmos, mas conceitos de significado mais profundo ou mais abstrato. Para entendê-los, é preciso compreender a sociedade, o contexto histórico e o artista que criou. (Robert Cumming Para entender a arte. São Paulo: Ática, 1995).

Qualquer pessoa que embarque na viagem de exploração dos significados das pinturas logo ficará confusa com a quantidade dos pontos de vista apresentados. Uma orientação simples é: se você vê alguma coisa sozinho, acredite nela – não importa o que digam. Se você não consegue ver, não acredite. Cada pessoa tem o direito de levar para uma obra de arte o que quiser levar através de sua visão e de sua experiência, e guardar o que decidir guardar, no nível pessoal. O conhecimento da história e das habilidades técnicas deve ampliar essa experiência pessoal. (Robert Cumming Para entender a arte. São Paulo: Ática, 1995).

A obra de arte como texto visual adquire existência plena quando se torna objeto de uma leitura (...). Para ser lida, uma obra de arte propõe uma forte relação entre objeto e leitor, mediante um contrato de visibilidade, isto é, de uma relação entre aquilo que se mostra e aquilo que é visto.” (Anamelia Bueno Buoro – 2002, p. 224).

Quando se analisa um objeto iconográfico, é importante tentar inverter a lógica tradicional da linearidade histórica: partir sempre do presente, associando o que está sendo estudado com questões atuais associadas ao nosso cotidiano e contexto para, então, estabelecer relações e conexões com outras temporalidades. Com isso, estaremos dando um sentido mais concreto ao estudo do passado, sempre o associando ao presente e aos reflexos que o mesmo tem na sociedade contemporânea.

A maneira de ler e interpretar um livro difere de pessoa para pessoa, mas o autor pode produzir um caminho para munir seus leitores de informações e detalhes para produzir uma leitura mais ampla e profunda.

Parabéns Eucajus, sua leitura da Ultima Ceia e Mona Lisa de Leonardo da Vinci, muito em breve tornar-se-ão objeto de estudo, pois são surpreendentemente reveladoras!

Profª Marta A. Vianna