Metaforas Em Ordem Dos Fantasmas - II

 


A essa altura acredito que a grande maioria dos leitores de Ordem dos Fantasmas saiba da citação a Franz Kafka no inicio da história... Sanatório “Lier King”, anagrama de Sanatório “Kierling”. Mas o porquê de tal citação?

Kafka sentia que as metáforas liquefaziam o sentido, transformando a linguagem numa rede de fios impessoais a manipular fantoches. Escreveu, em 1921: "...as metáforas são uma das coisas que me fazem perder a esperança na literatura". 

No entanto nosso autor tcheco, não deixaria de fazer metáforas apenas porque quisesse; seria necessário driblar o caráter metafórico da linguagem humana. Porém, abre seu romance mais conhecido, A Metamorfose, justamente com uma metáfora: "Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso". Mas, a partir daí, a metáfora "inseto Gregor" passa a ser narrada como se não fosse metáfora, como se sua existência não fosse absurda, como se não houvesse mais a metáfora. O inseto-Gregor se torna parte lógica e "natural" de outra coisa maior. 

A metáfora, quando a percebida parece convidar o leitor a deixar de lado a realidade para vê-la sob uma perspectiva diferente, permitindo-se ver novamente aquilo que mal havia visto. Assim, inicia propriamente Ordem dos Fantasmas:

- Mãe! Que bicho é este?
- Esse é o terrível bicho Livro Selvagem.
- Terrível! Vai dize que ele é perigoso?
- Ele é uma das coisas mais perigosas que existe!
- Ele é tão bunitinho!

A metáfora é provavelmente a potência mais fértil que o homem possui, pois somente ela cria entre coisas reais recifes imaginários. O conhecimento do conhecimento está destinado a permanecer simbólico, aludindo ao que se pode saber, mas não se sabe do Bicho Livro Selvagem ou dos fantasmas! Trata-se de um livro de várias leituras, em cada uma delas, um novo “fantasma” se revela.


Dr. Moacir A. Alvim - Psicoterapeuta