Ordem dos Fantasmas e a Biblia


Estaria o destino da humanidade, fadado ao fanatismo de diferentes leituras bíblicas?

Então vejamos... Após Jesus ressuscitar, sabemos que Tomé não acreditava que ele havia ressurgido. O que fez Jesus? Apareceu para Tomé e incentivou a tocar em suas chagas. Nem por isso ficou na consciência popular a expressão “tocar para acreditar”, mas sim, “ver para crer”! Jesus ofereceu a Tomé mais do que ele desejava. Para Tomé, bastava ver. 

Tomé foi quem mais compreendeu o que estava ocorrendo. Ao contrario daqueles que preferem acreditar na incredulidade. Tomé exigiu que Jesus continuasse o espetáculo para os olhos, o espetáculo dos milagres - todos os milagres eram para assistir, para ver. 

Poucos são os que vêem na Bíblia dois tipos de narrativa: uma que é mais para o ouvido, outra mais para os olhos. A Bíblia do Antigo Testamento é auditiva. A do Novo testamento é visual.

O Antigo testamento conta a história do povo de Deus. Mas Deus mesmo não aparece. Quer que o adoremos por conta de sua obra. O Novo Testamento traz um Deus cuja questão é ele próprio: mostra-se, se coloca em evidência, morre em um lugar bem visível e, enfim reaparece.

O Novo testamento faz-nos tremer com a imagem de Jesus na cruz. A cena do Golgota é incrivelmente arrepiante. Pode haver algo mais impressionante que a imagem de um deus morto, um deus na cruz? O que é colocado no Antigo testamento pode ser encontrado em varias lendas e mitos de outros povos. Mas a imagem de Golgota não. A imagem do Filho de Deus em nossas retinas, não ganha somente os cristãos, ganha o Ocidente

Hegel e Nietzsche mostraram que após Jesus começamos a montar o que se tornou o perfil do chamado homem moderno. Enquanto os deuses gregos eram pouco reflexivos e muitos temperamentais (quase como crianças), não raro se serviam dos mortais para disputas entre eles. 

A cultura judaico-cristã trouxe para o Ocidente, a ideia de um deus único e que se importava com os mortais. Quando Deus queria ver sua vontade em nosso mundo, escolhia um profeta, e esse então nos transmitia o que teria de ser feito e o que deveria ocorrer. A grande novidade foi mostrar que esse deus podia ser tão visível e palpável quanto os deuses gregos. Jesus, uma divindade para viver entre os homens, inaugurando um novo relacionamento entre o divino e o mortal.

Apesar de coletiva e ter crescido segundo a ideia de comunidade, a religião de Jesus cultua o self enquanto intimidade. Exame de consciência, sentimento de culpa, piedade e liberdade individual.

O critico literário Harol Bloom defende a tese de que os americanos entendem Jesus pelos ensinamentos dos mais antigos cristãos, os mais próximos de Cristo, como seu irmão, Tiago. Diferente do cristianismo do apóstolo Paulo, mais condizente com a ideia de que a trajetória de Jesus é o verdadeiro modelo. Modelo a ser seguido por aqueles que desejavam criar a modernidade.

Paulo falava em Morte e Ressurreição. Essa ressurreição é do corpo, do corpo mesmo. Bloom diz que esse conceito nos faz ver Jesus como um anjo ou como quase um fantasma, nem material, nem espiritual, e pergunta: do que serve a ressurreição de um corpo no céu?

Jesus se apresenta como aquele que, mesmo ao morrer, não deixa o corpo para trás. Tendo corpo, faz-se aquele que vem para ser visto! Mas onde? Na terra, é claro! Pode ser visto porque é um homem com corpo. 

Durante o Calvário é desnudado e exposto na cruz. A partir da ressurreição, Jesus mostra-se como um exemplo daquele que se individualizou. Daí para frente reaparece mais em corpo que em alma. Todos devem ver o corpo e compartilhar tal visão. Ele não fala muito após a ressurreição, nada de parábolas ou falatório. 

Os artistas que o pintam, sentem a necessidade de expor seu corpo e seus gestos, dando aos quadros a cadência do homem moderno: fala pelas mãos, gesticula, aponta, diz de si. Esse dizer de si mesmo é ter consciência de que está traçando um caminho. Assim somos nós, modernos. Somos os que olham para o que passou e acreditamos que nossa tarefa, como bem escreveu Eucajus, é “entender o passado, para prever o presente e estudar o futuro”! 

Então quem sabe, possamos ler ou reler a Bíblia em seu significado original, como um livro, um bom livro. Contrariando aqueles que querem nos fazer acreditar que a leitura da Bíblia é uma prática restrita às pessoas de fé.

Luiz G. Albuquerque 

Esse texto é um resumo de “O Crucificado na Pintura e no Cinema” de Paulo Ghiraldelli Jr. - Publicado na Revista EntreLivros-Biblioteca, Ano I, Nº 02, Pag 76 a 85, Editora Duetto