Os Fantasmas de Leonardo da Vinci

Em 1910 Freud escreveu sobre “A lembrança infantil de Leonardo da Vinci”, onde ele se propõe a estudar essa “grande figura da humanidade”, e a analisar as inibições de Leonardo tanto na vida sexual como nas atividades artísticas. Apesar de Freud admitir que a psicanálise não tenha recursos suficientes para falar sobre o valor da criação artística, quando ele fala de Leonardo ele procura analisar a função do fantasma original no seu trabalho artístico: a aparência andrógina de suas figuras, mostrando que Leonardo tentou fundir o masculino e o feminino numa mesma figura.

Em seus inúmeros escritos, Leonardo também se comanda através de um outro imaginário, tratando-se na segunda pessoa, perguntando-se sobre assuntos diversos ou pessoais, como “diga-me algo sobre isso ou aquilo”, e terminando às vezes com vários “diga-me”, “diga-me”, “diga-me”. É uma alienação radical, onde sua escrita espelhada evidencia, além de seu processo de sublimação, sua posição diante de si mesmo e o lugar que ocupa em seu fantasma: "Correlativamente a toda sublimação (...) vê-se sempre se produzir, no nível do imaginário, sob uma forma mais ou menos acentuada conforme a maior ou menor perfeição desta sublimação, uma inversão das relações entre o eu e o outro".
Lacan levanta a hipótese do processo de sublimação se chamar também de alienação, onde o sujeito esquece a si mesmo como objeto imaginário do outro. Lacan acha que o que está em questão é uma espécie de duplo, que se articula ao estranho (Unheimlich) e, ao mesmo tempo familiar. O termo ‘estranho’ está relacionado ao fenômeno do ‘duplo’, que diz respeito ao sentimento de experimentar algo em comum com outra pessoa, de tal modo que se fica em dúvida entre o seu próprio eu e o da outra pessoa, incorrendo numa identificação, numa espécie de duplicação.

É inegável que haja um senso de mistério na estética de Leonardo, para Lacan, o fantasma se apresenta no interior do jogo dos significantes, numa estrutura gramatical.

A arte é vista por Freud como sendo uma satisfação substitutiva que é psiquicamente eficaz, devido ao papel que a imaginação e a fantasia ocupam na vida anímica; ela é um modo específico de organização em torno do vazio, e a obra de arte é uma forma de abranger a Coisa.

A arte, a religião e a ciência são os termos que Freud define para a sublimação. Nesse sentido, Leonardo da Vinci não poderia ser um exemplo melhor.

Beatriz Elisa Ferro Siqueira
Esse texto é um resumo. Para ler na integra, clik AQUI.