Psicologia Em Ordem Dos Fantasmas





A escuta adquire um lugar central na psicanálise por ser uma coisa de palavras ditas ou silenciadas. Palavras que enganam, mas que abrem um acesso à significação. A metáfora da luz domina sua área expressiva e inquisitiva, enquanto a necessidade de ver e iluminar guia o esforço. O visto, e com maior razão o olhado, goza de uma prerrogativa relevante. Não é, pois temerário afirmar que durante a vigência do naturalismo predomina epistemologicamente o campo visual e que a intenção explícita ou tácita de seus seguidores é conhecer olhando. 

Escutar refere imediatamente a fala e sua raiz latina que vincula ‘o escutado’ ao ato de ouvir e de ‘montar guarda’; situação em que o escuta, cumprindo ofício de sentinela, vigia os sons provenientes de um campo diferente do seu próprio”. É então que o exercício da suspeita se torna presente porque há a mais do que o dito para ser escutado. No falar, em certos momentos, a lógica consciente se rompe, se desvanece, e algo diferente se torna presente, manifestando uma outra lógica. A lógica do processo primário, presente no lapso, no esquecimento, na frase contraditória, no duplo sentido.

A instauração da situação analítica no livro “Ordem dos Fantasmas”, se produz no seio da associação livre de imagens, cujas combinações possíveis se multiplicam. O ritmo, a cadência, a intensidade maior de alguns fonemas, a excitação explícita de uma palavra, o sentido duvidoso de uma frase, tudo isso vai dando tonalidades diferentes a essas figuras que não devem passar despercebidas à escuta do leitor. Ao mesmo tempo em que o personagem é escutado pelo analista, o leitor que lê se escuta. 

Quem se dispõe a escutar se depara com o inesperado e é isto o que acontece quando, no seio do processo de “relatar”, o personagem irrompe surpreendentemente. Eucajus se deixa surpreender, e não faz da interpretação analógica uma tentativa de enjaular a fera, pois o campo da escuta traz à cena a história, não a história factual, mas da constituição do fantasma, onde o campo da transferência é algo que inclui ao mesmo tempo analisando e analista. Para pedagogia da Psicanálise esse livro é uma grande ferramenta!
Walter F. Soares - Psicologo