Shaftesbury em Ordem dos Fantasmas


De acordo com Shaftesbury, “nós temos em cada um de nós um demônio, gênio, anjo, ou espírito guardião, a quem nós estávamos intimamente ligados desde a primeira aurora de nossa razão”, não é outra coisa senão dizer que temos desde o nascimento um interlocutor interno com quem exercitar a linguagem dos nossos pensamentos. Porém nossos pensamentos possuem uma linguagem obscura e implícita. Por essa razão, é necessário dar-lhes voz e pronúncia. Um “espelho vocal” que fala, ouve e aconselha.

Conhecer-se é ser íntimo de nosso si - mesmo (Self), é ouvir coisas que não aceitaríamos de mais ninguém. Segundo Shaftesbury, é graças ao embate dessas “duas partes do eu” que entraremos em acordo conosco – mas para tanto é necessário suportar esse diálogo e passar pelo crivo de nosso examinador. Será então preciso encontrar algum método, ou aprendizado, que faça com que possamos praticar o Solilóquio de modo seguro e eficaz.

O diálogo, enquanto maneira de escrever traz em si uma complexidade. Apresenta-se como algo simples e natural, no entanto, para sermos coerentes com nossa época, temos de retratá-la de acordo com seus costumes e maneiras. Se colocarmos isso num diálogo reconhecerá a própria artificialidade com que nos dirigimos aos nossos semelhantes. Por alguma razão desconhecida, nossa natureza não nos soa natural. O que fazer diante de tal situação? Ir buscar na Antiguidade o modelo do diálogo e simplesmente transportá-lo para nossa época? Os costumes de hoje não são adequados ao modo de se expressar de ontem. Porém, os antigos sábios nos ensinaram que o melhor modo de refletirmos a época em que estamos vivendo é “construir” nosso caráter, ou seja: determinar nossa individualidade, que se torna possível quando interpretamos nosso próprio personagem.

Trata-se, assim, de “marcar”, de “definir”, uma personalidade. Era o que faziam os poetas da Antiguidade: no lugar de narrar suas aventuras pelo mundo afora, eles apresentam personagens que nos parecem vivos.


Eucajus nos apresenta personagens simplesmente vivos, pobremente caracterizados em descrição! Isso soa estranho? Real? A simplicidade com que os introduz na narrativa, sem os apresentar, é uma prova que encontrou sua própria linguagem. Nela o leitor não é um mero destinatário, mas um "personagem criador" convidado a satisfazer expectativas, criar questões interlineares, imaginar formas e cenários, o leitor torna-se argumento e membro da Ordem onde os pensamentos são fantasmas que podemos ouvir e às vezes, ver!

Fernado Simeon