Um Manual de Iniciação




Mistério é palavra grega (mystérion) e significa “o que é secreto”. Provém do verbo myéin, usado quando devemos “calar a boca”. Daí que mystes se refere a tudo aquilo que se fecha; é o iniciado que calado conhece e guarda. Mesma raiz dos termos mystikós que designa o místico, aquele que penetra nos segredos e myesis refere-se aos ritos em que a sabedoria é preservada.

myéin = initiare; myesis = initiato; em português: “iniciar” e “iniciação” 

O mistério, antes de tudo, constitui um caminho de renascimento, regrado pelo secreto sentido da vida. Assim, iniciação é a senda de todo aquele que deseja retirar-se da vida profana para iniciar-se no saber sagrado. Acha-se implícito aqui o tema da morte simbólica, principal etapa a ser vencida por todo candidato que se proponha a renascer na luz espiritual.

Toda cerimônia de iniciação dramatiza transformações profundas na vida do ser humano, assinalando sua morte simbólica para a antiga vida e fazendo-o renascer para um novo estágio da alma. 

Com o evoluir da humanidade, os ritos iniciáticos tornaram-se prática constante, presentes nas mais díspares sociedades, primitivas ou não. Sob o aspecto sociológico, tais cerimônias visavam dramatizar uma mudança significativa no status de cada iniciado, quer para conferir-lhe novas aptidões transformando-o, por exemplo, num xamã, sacerdote, caçador; quer para transmitir-lhe solenemente algum saber secreto próprio da cultura.

Antes de fundar em Crotona sua escola de filosofia e esoterismo, Pitágoras migrou por 22 anos pelo Egito e Babilônia, submetendo-se a duras provas que fizeram dele um mestre. Há exemplos inatos de iniciações entre os povos indígenas e tribos de toda a espécie, que dramatizam as grandes experiências da vida por meio de ritos de maioridade, matrimônio, ritos funerários, ou ainda aqueles em que o iniciando recebe o espírito de entidades animais, capazes de lhe emprestar seus atributos, como o caráter predador necessário a todo guerreiro. No catolicismo encontramos o ritual de ordenação dos padres, assim como a conferência de outros sacramentos como o batismo, a crisma e o matrimônio, destinados a transformar profundamente o indivíduo sacramentado. Por vezes a iniciação pressupõe infligir marcas corporais indeléveis aos iniciados, para firmar uma identidade comum entre os indivíduos do mesmo clã. É o caso da circuncisão, rito comum entre os primitivos da Polinésia e entre os judeus, como um pacto de fidelidade e obediência a Deus, também sinal de ingresso à vida, que simbolicamente repete o corte do cordão umbilical. Os egípcios adotavam o mesmo rito, e o procedimento era corrente entre os árabes, muito antes do advento do islamismo. Em nossa sociedade, o costume da careca dos novos universitários e o uso das becas na colação de grau são resquícios ainda bem vivos de antigas tradições que até hoje raspam os cabelos de seus monges iniciados e os obrigam a usar hábitos religiosos ou turbantes específicos, conforme a ordem ou a seita.

Toda iniciação, enfim, constitui um processo marcante de aprendizado, por meio do qual o iniciado, também chamado neófito ou aprendiz pode vivenciar experiências transcendentais e alcançar melhor compreensão dos segredos da natureza e da própria condição humana e de si - mesmo. O termo neófito é uma palavra grega que designa o que foi plantado há pouco (neo = novo + phitós = planta), aquilo que recentemente é fecundado na alma. Ou seja, o neófito simbolizado pela criança, é um aprendiz essencialmente puro, que desconhece os percalços do caminho e, conscientemente ou não, está preste a ser banhado pelas torrentes da existência, sofrendo assim uma experiência nova, dolorosa ou não, mas libertadora.

Iniciações são processos paradoxais: se, por um lado, visam à ampliação da consciência através de vivências únicas que trazem o aprimoramento pessoal, por outro, nos incitam a romper os limites dessa mesma consciência, fazendo nascer em cada neófito a vontade inata de saltar no desconhecido universo de si mesmo. A iniciação, em seu sentido pleno, faz morrer; o neófito deve entregar-se à morte, para que saia renascido pela saída / entrada que o leva a outra dimensão. A morte iniciática nos promove à rara condição de espectadores do mistério. Todo iniciado deverá primeiro regressar ao seio da terra, e encontrar em suas entranhas o útero de onde poderá ser novamente parido. 

No sentido iniciático, as psicoterapias que privilegiam o inconsciente cumprem semelhante função. Jung, por exemplo, chamou de individuação a esse processo psíquico natural voltado para o autoconhecimento, repleto de situações arquetípicas que devem ser vitalmente experimentadas. Sempre que buscamos sinceramente conhecer a sombra que trazemos em nosso psiquismo, apresentamo-nos à grande iniciação. Uma vez descortinado o véu entre o profano e o sagrado, deparamo-nos com o templo de nosso mundo interior, depositário de valores infinitos, agradáveis ou não, que devem ser plenamente assimilados. Nesse exercício, rompemos as amarras que nos prendem à condição mundana, e alçamos vôo a novos planos de consciência, sutis em relação ao antigo, onde vislumbramos um caleidoscópio de possibilidades. A iniciação tem mesmo seu sentido oculto. E ele jaz latente em nossa alma, que, feito lagarta, espera pacientemente pelo milagre natural da metamorfose.


Titulo Original: Os Mistérios da Iniciação. Vida, Morte e Renascimento
Texto de Paulo Urban- Psicoterapeuta junguiano e médico psiquiatra.
Fonte: Revista Planeta - Edição nº 353.
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