A Memória em Ordem dos Fantasmas


Aristóteles distingue a memória em: mneme, faculdade de conservar o passado; da reminiscência, e a mamnesi, faculdade de invocar voluntariamente o passado. A memória não é nem sensação nem julgamento, mas um estado ou qualidade de um deles, quando o tempo já passou. Portanto só as criaturas vivas que são conscientes do tempo podem lembrar.

“Todas as coisas que são imagináveis são essencialmente
objetos da memória, e aquelas que necessariamente envolvem
a imaginação são objetos da memória apenas incidentalmente.”
(Aristóteles, 1986, p. 291)

Essa citação de Aristóteles nos remete a considerações importantes sobre os primórdios do que chamamos história. Nos textos gregos a palavra história não existe. A palavra grega remete a histor - "aquele que viu". Trata-se de uma narrativa, de um relato informativo.

Em seu texto Memória e História, Le Goff descreve: a memória individual/coletiva; a memória como narrativa, identidade; a memória como conteúdo psíquico; a memória social, a memória étnica; e as funções da oralidade e da escrita na construção da memória... Le Goff lembra dos homens-memória nas sociedades ágrafas; dos funcionários da memória, os mnemom (arquivistas), que remete a Farenheit 451 citado em Ordem dos Fantasmas:

- Livros viram filmes.
- E filmes viram livros: O Último Papa, O Garoto, A Vida é Bela e Amistad!
- Amistad?! Não sabia...
- Terá uma grata surpresa! Falando em livro que vira filme, você viu Fahrenheit 451?
- Não.
- Veja! É um filme maravilhoso!... (Ordem dos Fantasmas-Pag.71)

Eucajus sabe muito bem que a imagem visual predomina e ganha lugar de destaque na construção da memória, sua narrativa nos provoca a refletir sobre a força das imagens, o que elas produzem, que instauram ou o que encobrem... Leva-nos a refletir sobre as formas de sustentação das imagens nas relações com os signos e com as palavras. Mas Eucajus não se restringem às imagens visuais, ele também trata das possibilidades táteis ou sonoras: "Veja com os ouvidos" e "agora veja suas palavras". A realidade psicológica é fundamentalmente social, e necessariamente mediada e constituída por signos. A palavra, como signo por excelência, constitui modos específicos de ação significativa, de modo que a memória humana e a história tornam-se possíveis no e pelo discurso.

Estudar a memória no homem, não é estudar uma "função mnemônica" isolada, é estudar os meios, os modos, os recursos criados coletivamente no processo de produção e apropriação da cultura. Ao ser capaz de imaginar o que não viu, conceber o que não experimentou pessoal e diretamente, baseando-se em relatos e descrições alheias, o homem não está encerrado no estreito círculo da sua própria experiência, mas pode ir muito além de seus limites através da imaginação e das experiências históricas e sociais.
 
Os aspectos que conceituamos como "histórico-cultural", "ideológico" podem se tornar visíveis em uma análise da materialidade da língua, que constitui e estabilizam modos de ação e de elaboração mental, como práticas inscritas e instituídas na cultura. Se de algum modo nos preocupamos em compreender como a palavra vai forjando e transformando a memória, ou seja, como a memória (dita) psicológica vai se constituindo e se organizando no e pelo discurso, podemos também problematizar como a memória vai se inscrevendo na palavra, como as práticas vão se inscrevendo no discurso, como aquilo que se tornou objeto da fala e da emoção humana perdura ou se esvai... Como fantasmas!

Sandra G Salvaro -Estudante Psicologia