Afinal Onde estão os Fantasmas no Livro?



Antes de tudo, o que é o fantasma? O fantasma, propriamente falando, constitui-se como uma defesa contra o real. Ele é uma espécie de tela que dissimula o encontro com o real e o torna suportável ao sujeito. Em outras palavras, há algo que vem do real que é intolerável ao sujeito, algo que ele deve mascarar e obturar. Esta “coisa” é a castração, é a falta primordial que bate à porta do sujeito desde seus primeiros momentos de existência. 

O objeto está então faltando, e o sujeito vai justamente homologar esta perda formando um fantasma. No primeiro momento o fantasma não é mais do que a representação imaginária do objeto perdido. Este objeto que serve de suporte ao fantasma é então o objeto que causa e coloca em movimento o desejo do sujeito. 

Contudo, o fantasma não é somente uma formação defensiva, um resultado de um mau encontro com o real, o fantasma é também a matriz dos desejos atuais. Através do fantasma, toda a realidade do sujeito vai ser atravessada pelo desejo, pois o fantasma enquadra, emoldura a realidade. Dito de outro modo, nós podemos também ver no fantasma uma função organizadora da realidade humana e, enquanto tal, o fantasma não é somente uma função puramente imaginária, mas também uma função simbólica. Desta maneira, o autor de Ordem dos Fantasmas utiliza o conceito de fantasma para amarrar o simbólico, o imaginário e o real, onde o imaginário corresponde a tudo que o sujeito pode produzir como imagens, traços de ambos os seus mundos, personagens de seu ambiente, etc. O sintoma aparece para o sujeito como uma opacidade subjetiva, como um enigma.

Com efeito, é através do fantasma fundamental que as exigências pulsionais encontram sua dimensão psíquica em termos de conteúdo organizado, conteúdo que será utilizado pelo eu para fazer face à “realidade intolerável”. Desta forma o Fantasma fundamental não é apenas uma espécie de guia de interpretação dos eventos que atingem o aparelho psíquico, mas também um meio de acessar o gozo (satisfação). É assim que o fantasma desempenha o duplo papel de dar testemunho do encontro com o real e de fornecer o material a partir do qual a realidade pode tornar-se algo novo. É graças ao fantasma que suportamos todo encontro com o real.

É por isso que a psicanálise utilizará uma técnica que se centra na palavra, já que é somente através dela que podemos penetrar um pouco mais neste terreno pouco desbravado. É nesta insistência que a análise vai reconhecer os desígnios da pulsão e poderá tentar empreender a cura.  A “cura” psicanalítica não visa restituir ao sujeito o poder total de seu destino e de seus desejos, mas apenas dar-lhe a possibilidade de trabalhar, de agir sobre um terreno de contingência, sobre uma pequena brecha que se abre no real. 

Lacan diz ainda que nessa relação entre imaginário e real, as relações estabelecidas com os objetos dependem do lugar do sujeito no mundo do simbólico, no mundo da palavra, por essa razão que a narrativa deste livro se centra na abordagem do fantasma, é por seu intermédio que o autor pode aceder ao seu próprio gozo e esperar, a partir daí, uma mudança no mesmo. A cura psicanalítica não visa, assim, nada senão dar ao sujeito a chance de fazer sua a sua própria verdade, fazer seu o seu próprio estilo, não no sentido de se apropriar de algo que já estaria lá, mas antes, no sentido de construir algo a partir dali. Recomendo essa obra a todo estudante de psicologia!

Pulsão: Tendência permanente, e em geral inconsciente, que dirige e incita a atividade do indivíduo.

Gozo: Posse ou uso de alguma coisa de que advém satisfação, vantagens, interesses.

Alex R. de Oliveira