Analisando a Analise em Ordem dos Fantasmas



Como literatura Ordem dos Fantasmas está entre o científico e artístico. O primeiro não exige como finalidade a transmissão do “belo”.   A beleza provocada pelo texto de Eucajus remete a um tipo de estranhamento semelhante a alguém que diante do espelho duvida das suas expressões. Assim também é o processo de análise. O sujeito começa a abrir espaço para um outro muito próximo de si mesmo que se apresenta antes de tudo como um desconhecido.

"- Guten morgen! Sou seu novo médico!
- O senhor é alemão?
- Tchéco!
- Qual seu nome doutor?
- Sabe que naín devo dizer.
- Então porque perguntei?
- Quer saber se sou alguém que vai entendê-lo."

A psicanálise abre espaço para o não saber, para as desconstruções e principalmente para a criação de formas mais reconciliadoras de se lidar com os sintomas. Para tal é necessário um analista, um analisando, uma língua, uma demanda... O escritor, como na análise, endereça suas palavras, escolhendo significantes das suas histórias. Toda a teorização sobre o inconsciente baseia-se no processo de inscrição do sujeito no mundo simbólico, através do qual a linguagem funda as relações interpessoais no campo social. Sendo que significante, produz um efeito de significado para algo enigmático, algo desconhecido.

"- Espero que tenha percebido! Este jogo não é uma simples questão de analise, mas, também uma analise simples do jogo em questão!"

A prova da realidade, portanto, seria encontrar na percepção real de um objeto a sua correspondência de representação. Na estrutura clínica há as sublimações criadoras, a identificação imaginária e a própria transferência podem funcionar como veículos que favorecem a estabilização na psicose.

No texto, “Escritores criativos e Devaneios”, Freud busca na infância alguns fundamentos para compreender o caráter imaginativo dos artistas. As crianças, assim como os poetas levam a sério a fantasia, investem nela emoções, distinguido-a da realidade. O autor de Ordem dos Fantasmas é um poeta e as crianças são os protagonistas em "As Gravações"! O analista, o analisando ou autor têm, através da literatura, a oportunidade de serem leitores atentos da sua própria história, porque o Outro do texto está constantemente representado.

"- Entende o significado místico dessa lembrança real?
- Sinceramente não.
- Então será processado pela "poderosa associação dos escritores"!
- Associação Cognitiva! Que ideias devo associar?
- Naín me pergunte, você é o escritor!
- Um escritor que não sabe controlar seus personagens..."

Roland Barthes identifica alguns “recalques da leitura”, um deles é o recalque da Biblioteca, em oposição ao Desejo, já que a tendência é nunca encontrar o livro desejado, ele sempre estará em falta, estando à biblioteca então num espaço para os substitutos do desejo. A biblioteca é um espaço que se visita e não que se habita.

Ainda, segundo Barthes, o efeito que a leitura provoca no leitor, se trata da multiplicidade de sentidos tão vasta que a literatura torna-se o lugar onde a estrutura se descontrola.  É esse descontrole que o autor metaforiza com loucura em Ordem dos Fantasmas. A mensagem perde seu contexto e  passa a evocar uma realidade que está pressuposta na relação distante entre a coisa (ou o objeto a ser nomeado) e o observador. O leitor de Ordem dos Fantasmas só perceberá que o personagem principal não é nomeado quase ao final da leitura! O autor ilustra o conceito de que a literatura é muito mais do que uma tentativa de representação ou de aproximação da realidade, sendo justamente a desconstrução dessa ideia, ou seja, a construção de um mundo no mundo. 


A associação livre, método utilizado na análise, refere-se a um princípio psicológico segundo o qual as ideias, sentimentos, ações e palavras se apresentam e exprimem as experiências atuais e passadas dos indivíduos. Falar, associar livremente e escutar são também “criações literárias”, pelo ponto de vista de todas as ideias apresentadas neste livro, pois há uma verdade inconsciente que é sincera na mesma proporção em que é fantasiosa, imaginária, onde "inspirar-se" acaba sendo nada mais nada menos que sofrer o sopro da alteridade para, em seguida, bafejá-lo numa criação. 

P.H.S