Análise do Fantasma

"O mundo vem a nós apenas como imagem, está semi-presente e semi-ausente; em outras palavras, é fantasmático; e nós também somos como fantasmas” (ANDERS, 1973: 421).

Em Ordem dos Fantasmas, o fantasma é a condição totalizadora: o mundo exterior é fantasma, a realidade é fantasma e mesmo os leitores são fantasmas. O autor trabalha dentro de uma concepção na qual a linguagem é a ferramenta de ação do pensamento. Isso é bem ilustrado com a noção de que ao consumir produtos de massa, nos tornamos homens de massa e fantasmagorizamos o nosso redor. No entanto, a própria “descoberta” do inconsciente proporciona uma virada linguística. A linguagem não é mais ação do pensamento, ela funda o pensamento e toda a realidade. Além disso, possibilita novos fantasmas.

O sujeito, “em sua forma completa, se reproduz cada vez que o sujeito se dirige ao Outro como absoluto, isto é como o Outro que pode anulá-lo ele próprio, da mesma maneira pela qual pode agir com ele, isto é fazendo-se objeto para enganá-lo” Dessa forma o sujeito só existe na linguagem com suas formas de eu; no entanto, há o que Lacan chama de “muro da linguagem” a partir do qual o imaginário toma sua falsa realidade.

Em termos mais simples, o fantasma nada mais é que a junção entre aquele que é faltante e o seu objeto, junção cimentada pelo desejo. O sujeito dividido, barrado, instituído pelo simbólico, vincula-se ao objeto que o completa imaginariamente.

Eugênio Bucci afirma que a televisão captura o fantasma e dá a ele um direcionamento no imaginário, a televisão não diz como o fantasma se completa no seu objeto, mas organiza o estabelecimento do fantasma, numa relação imaginária, que se rege prioritariamente pela lógica da realização de desejos. Ora, o fantasma que Eucajus propõe é aquele que está liberado na imagem como natureza e não como linguagem. Ela é fonte de dominação por sua idiotia, usada por Debray no sentido grego, ou seja, por sua particularidade simplória: “essa selvageria ou idiotia da imagem (...) que faz a superioridade midiológica. Uma figura está mais próxima e mais apropriada à passagem ao ato do que um discurso”. Há quinze séculos, os cristãos já sabiam disso: não existe uma boa catequese sem imagens sensíveis.


Assim, o fantasma proposto na narrativa estende a lógica discursiva ao império das imagens, deixando escapar simultaneamente estratégia e desafio. O fantasma é o elemento que provoca essa captura pelo olhar. Ordem dos Fantasmas trata das relações sociais inseridas na lógica e na dissolução do tempo (ampliação do paradigma da visibilidade) e do espaço (podemos ser todos onipresentes), nessa relação o fantasma não será visto; mas ouvido!


Dr. Guilherme Bastos