Estética de Um Poeta



A imagem poética envolve procedimentos imaginativos e materiais pertinentes à criação, através das quais se criam campos semânticos que ultrapassam a linguagem verbal. O espectro da significação é mais amplo que o do enunciado linguístico. Seus fenômenos têm por matéria conteúdos e sentidos nascidos na ante-linguagem articulando-se a núcleos poéticos extensivos à pós-linguagem.

Em Ordem dos Fantasmas esses núcleos constituem a sucessão encadeada que produz outras imagens e desdobramentos. Ao relermos novas combinações se sobrepõem, o sistema imagético se desdobra a cada leitura, pelo dinamismo estético. Tal dinamismo instaura uma poética do olhar que força uma leitura ativa.

Nesta perspectiva, Bachelard nos doou não só um método de interpretação da arte, como nos deixou um campo aberto a novas incursões, em que tanto o artista e esteta encontram subsídios para criar seu próprio método de leitura e interpretação da obra.

A propósito, lembramos que no pensamento de Bachelard, a ilusão de duração ocorre quando se articulam vários instantes reunidos em um sistema. A continuidade é apreendida graças a um sistema de instantes agrupados pelos atos de percepção, de atenção, pelo pensamento ou pela memória. Em Ordem dos Fantasmas, do mesmo modo, ocorre um evento de sentidos e significados articulados em um sistema imagético-espaço-temporal, que se atualiza diante do leitor. O diálogo movimenta a narrativa, cria objetos, luzes e sombras, cria espaços em vertigem, dinamiza o inusitado. A narrativa nos faz reagir em meio à obscuridade de alegorias, metáforas e símbolos. 

Há um universo visto pelo olho do autor e outro pelo leitor. Entre sombras e obscuridade, vive uma existência em ato, ao mostrar-se em tentativa de eclosão do dito na poesia, e o não-dito na narrativa.

Alessandro Pontal - Estudante de Letras