Metalinguagem em Ordem dos Fantasmas

Refletir a respeito da metalinguagem em Ordem dos Fantasmas é refletir sobre um “jogo” de tramas e artimanhas em que o leitor é conduzido por um narrador dissimulado, que articula e constrói a narrativa de acordo com suas intenções.

Ler é uma atividade produtora de sentido, mas ler criticamente é metalinguagem (...)” WALTY, Ivete. CURY, Maria Zilda. Textos sobre textos. p. 7-8.

Nesse sentido, acredita-se que a metalinguagem faça parte dessa interação autor/ leitor, em que o primeiro, partindo de uma intencionalidade, remete ao fazer literário como recurso construtivo do próprio texto; enquanto o segundo retoma tal recurso como possibilidade interpretativa. 

Segundo Antonio Cândido, todo escritor é dotado de três preocupações: o senso psicológico, o senso sociológico e o senso estético. Em Ordem dos Fantasmas esses três aspectos se interligam e se fundem. A exploração psicológica do pseudo "neófito", aprendiz – que permite conhecer o processo vivido pela personagem de tomada de consciência sobre si mesma e sobre o mundo que criou – não se dá isoladamente, mas é amparada pelo enfoque sociológico do autor, onde se extraem as causas que teriam levado a personagem a um processo neurótico de “coisificação” das suas leituras e da Cabala.

A par desses aspectos, o senso estético da obra é apuradamente insólito. A opção do autor pelo diálogo pessoa possibilita que o narrador-personagem, então presente nos fatos, relate o universo de experiências que resultaram numa leitura das obras de Leonardo da Vinci. A metalinguagem está presente no "praefatio", como núcleo da linguagem que será utilizada, sem muitas descrições ou adjetivações, com informações diretas, sem qualquer tipo de lirismo, mas um anúncio do primitivismo literário, forjado nesse livro selvagem!

O livro é sobre sobre leituras, tornando a metalinguagem um recurso gracioso e rico na construção da narrativa.


Jorge F. C. Coelho