Mito Platônico



Inseridos em um tempo e espaço específico, a incondicionalidade presente no mito é subtraída, mas não anulada. Assim, os mitos tornam-se veículos de uma mensagem transcendente, daquilo que nos toca incondicionalmente. Dessa forma, o incondicional–incapaz de ser expresso por outra forma de linguagem– é percebido pelos sentidos através da linguagem mítica; as irrupções do Sagrado no mundo dos homens são descritas por ele. Por essa razão, pode-se afirmar que o mito serve para tornar concreto o que de outra forma permaneceria abstrato. O mito é um modo de falar, ver e sentir dimensões da realidade inatingíveis racionalmente, dando-lhes significado e consistência. O mito carrega símbolos que apontam para o transcendente, indicando o sentimento de surpresa e mistério diante do que é inconcebível para os seres humanos.

1. O mito se apresenta à maneira de um "relato fictício": imagina uma situação, relata uma estória, que, como toda estória, compreende uma ação e personagens. A forma narrativa do mito, fantasista, bufona ou dramática, o aproxima da fábula, da parábola, da alegoria, mas o distingue da simples imagem, da metáfora, do paradigma ou da analogia que se tece em toda obra de Platão.

2. O mito rompe com a demonstração dialética; interrompe o discurso conceitual e se propõe explicitamente com outro discurso: não abstrato, mas imagético, não dedutivo, mas narrativo, não argumentativo, mas sugestivo. Faz apelo à imaginação ao invés do raciocínio, por vezes à sensibilidade estética ou a metalinguagem. Mas ao mesmo tempo em que interrompe o discurso argumentado, o substitui. O discurso mítico se oferece como único a poder falar de certas coisas.

3. O mito não é um método para buscar a verdade, é um meio para expor o verossímil. Excluem-se os casos limites dos relatos alegóricos, da finalidade essencialmente lúdica ou pedagógica, simples "auxiliares" a serviço da reflexão ou da compreensão. O mito intervém onde a dialética se mostra inoperante, uma hipótese plausível ainda que não verificável, "sugere o provável". Este provável, por conseguinte não deve ser subestimado, "grande é a esperança" que aportam os mitos, se "a eles se adiciona fé".

4. Se o mito não tem pretensão à verdade, tem pretensão sim ao sentido. Não deve ser lido ou escutado por si mesmo: tem um sentido oculto, é portador de mensagem, demanda, portanto ser superado, traduzido, interpretado, decifrado; e se o autor não dá por vezes chaves de uma decifração possível (como no caso da alegoria, cujo sentido é explicitado imagem após imagem), o mito permanece freqüentemente muito livremente aberto em muitos níveis de significação que um simples comentário não poderia esgotar.

5. O mito contém implicitamente uma dupla "intenção pedagógica": a princípio, porque esclarece o interlocutor em dificuldade e desembaraça o espírito fatigado, ou se faz sustentador de uma discussão que escorrega e patina. Neste caso, ajuda tanto à reflexão quanto à compreensão. O mito não tem somente uma "moral", é também um estimulante moral, outras vezes um fermento espiritual. Às vezes fábulas que desnaturaliza o divino, mais "útil" que o discurso sofístico de abandono intelectual, eventualmente mais "eficaz" que a demonstração dialética, posto que dinamiza a investigação, alimenta a fé e enriquece a esperança.