Muito de Giordano Bruno em Ordem dos Fantasmas



Embora tais campos não existissem na ciência de seu tempo, pode-se dizer que Bruno, estava interessado na natureza das ideias e no processo associativo da mente humana. 

No Século XIX intelectuais italianos redescobriram Bruno, tomando-o como símbolo do filósofo de vanguarda, ousado e livre, e mártir da ciência e da filosofia. Para muitos, no entanto, ele não passou de um ocioso, um filósofo andarilho, um poeta vadio, e ficou longe de merecer ser chamado de cientista. Mas, sem dúvida, foi um pioneiro que acordou a Europa de um longo sono intelectual. Ao final do Século XVI aparentemente não havia um único professor que ensinasse o universo segundo Copérnico, exceto ele, Giordano Bruno. Galileu apresenta suas provas somente mais tarde, no início do Século XVII, e mesmo então é obrigado a negar a teoria. 

Mais que qualquer outro, Bruno merece ser chamado pioneiro da ciência e da filosofia moderna pelo sentido profético de suas deduções em inteiro acordo com as teorias científicas e filosóficas provadas depois. Como um visionário ele é ousado e imaginativo, seu fim trágico fez dele um mártir da liberdade do pensamento.

Bruno é um filósofo cuja personalidade é um fator central para examinar suas ideias e sua atuação. Ele desejava reformar a filosofia aristotélica e ao mesmo tempo opunha-se barbaramente a seus contemporâneos. Envolvia-se em querelas violentas mesmo sobre questões triviais; inábil para agir em seu próprio interesse, afastava aqueles que poderiam protegê-lo. Era um filósofo condenado a fugir, combatido e excomungado por três Igrejas. Sua volta à Itália em 1591, depois de longo exílio, não era saudades da pátria, mas falta de alternativas de refúgio. Os exageros, as limitações e os erros de seu sistema científico, sua intolerância mesmo com aqueles que trabalhavam pelas reformas a que ele próprio estava devotado, as analogias, alegorias fantásticas, argumentos sofistas em que seu fervor emocional justificaria aos olhos de Bayle a comparação a Dom Quixote, dizendo eis, o "cavaleiro-errante da filosofia".

No Século XVI a filosofia se liberta da religião, e a ciência moderna nasce da filosofia. A ciência não mais será a busca da verdade na propriedade lógica de conceitos, mas através das lentes de microscópios e telescópios. Bruno é a figura principal nessa transição: torna-se um filósofo independente e pressente que a verdade está para além do autoritarismo lógico dos filósofos escolásticos. Embora não seja um cientista, pois não era nem matemático nem astrônomo, sua ideia de que o universo era infinito, e que muitos mundos deveriam existir além daquele então conhecido foi uma das grandes ideias estimuladoras da ciência, durante o Renascimento. O seu livro "Sobre o Universo Infinito e Mundos" em que faz sua afirmação da existência de outros mundos povoados por seres inteligentes é ainda hoje um grande apelo para a imaginação de muitos. Sua técnica de classificação sistemática de objetos da observação no preenchimento de tabelas, suas tábuas combinatórias, foram o germe os métodos empíricos que marcaram o início da ciência experimental.

Atraído pelas novas correntes de pensamento, entre as quais as obras de Platão e Hermes Trismegistus, ambos muito difundidos na Itália ao início do Renascimento, Bruno desenvolve então um interesse especial pela Arte Combinatória do místico e poeta catalão Raimundo Lúlio (1235-1316). Lúlio buscava construir um sistema de associações de ideias por meio de tábuas giratórias com as quais se poderia chegar a todas as combinações possíveis entre sujeitos e predicados, com a possibilidade de responder a todas as indagações do intelecto.

Nessa área, porém, talvez a influência predominante sobre Giordano Bruno tenha sido a da antiga religião egípcia do culto ao deus Toth, escriba dos deuses, inventor da escrita e patrono de todas as artes e ciências, e identificado com o deus grego Hermes Trismegisto (Três vezes grande) pelos neoplatônicos. As obras de Platão e também a Hermética, introduzidos em Florença por Marsilio Ficino ao final do século anterior.

A atitude de Bruno em relação à religião era a de um racionalista. Disse dele um teólogo: "um homem de grande capacidade, com infinitos conhecimentos, mas sem um traço de religião". Porém Bruno não se dizia ateu mas "filoteu" como no título de uma de suas obras: Philotheus Jordanus Brunus Nolanus de compendiosa architectura et complemento artis Lullii (Paris, 1582). Cunhou o direito de pensar, sonhar e filosofar, e foi martirizado devido ao seu excessivo entusiasmo. A ideia do universo infinito foi uma das mais estimulantes ideias do Renascimento.

A posição religiosa de Bruno era o motivo de ser bem aceito na corte e receber a proteção de Henrique III. O rei se interessa pela arte combinatória. Bruno desperta a inveja dos professores por ser popular e admirado. O rei concede-lhe uma renda especial, nomeando-o um de seus "Leitores reais". Foi por essa ocasião que um dos primeiros trabalhos de Bruno foi publicado De Umbris Idearum, ("A sombra das ideias") logo seguido por Ars Mernoriae ("Arte da memória"). Nestes livros ele sustentava que a ideias eram somente sombras da verdade.