Quando Olhar é Sentir



O movimento do olhar é o que situa o ser no mundo. O indivíduo não escolhe olhar, ele simplesmente olha e é olhado. As relações que se estabelecem seguidas deste olhar é que passam pelas escolhas. Primeiro eu olho, para depois decidir se fecho os olhos ou se os abro mais, se desvio ou se vou de encontro, o certo é que, uma vez estabelecido o olhar, o resultado desta ação permanece em algum lugar. Na concepção fenomenológica, ao olharmos o fenômeno com intenção, provocamos a emersão não só das visibilidades como das invisibilidades. Este movimento é um caminho, um possível caminho para a compreensão do outro, do eu e do mundo. 

Quantas vezes passamos nossos olhos pelas coisas do mundo sem atenção e intenção? Tudo está para ser olhado, não importa o modo como olhamos: com olhos da alma, olhos do corpo, olhos tecnológicos. Porém, neste mundo contemporâneo, as imagens são tão excessivas e rápidas, que na realidade não temos como olhá-las com o olhar reflexivo-sensível, olhamos apenas com o olho físico. Acabamos por não perceber mais o mundo e nós mesmos. Falta-nos o tempo e o espaço para olhar as coisas; e olhar, em primeira instância, é perceber. Precisamos da percepção para desenvolver nossas capacidades humanas. É com ela que nos situamos, nos relacionamos, refletimos, sentimos, ou seja, que compreendemos quem somos e o mundo que nos cerca. Nem sempre aquilo que vemos ou ouvimos reproduz em nosso sistema as características originais. 

"Veja com os ouvidos e ouça com os olhos!

Esse olhar que o Mestre se refere acontece pelo entrelaçamento de sentidos, percepções e consciência. Não é o olhar que apenas vê. Ele olha, toca, sente e compreende o mundo e, principalmente com o mundo. Afinal, os sentidos visuais, auditivos, olfativos, gustativos e táteis são meios de contato do sujeito com o mundo exterior. É certo que o ouvir, e principalmente ver, domina os estudos da percepção. Podemos atribuir este domínio, possivelmente as invenções que privilegiam e estimulam nossos olhos e ouvidos. 

"...pesquisas empíricas revelam que, 75% da percepção humana,
no estágio atual da evolução, é visual, isto é, a orientação do ser humano
no espaço depende majoritariamente da visão. Os outros 20% são
relativos à percepção sonora e os 5% restantes aos outros sentidos,
ou seja tato, olfato e paladar..."

Com a percepção, o homem apreende, intui e constrói o conhecimento. Para os empiristas ingleses, do final do Séc. XIX, os sentidos seriam a porta de entrada para o conhecimento. Este conceito deu impulso às pesquisas e teorias sobre a percepção. Afinal, se o conhecimento existe via sentidos, estes mereceriam minuciosos estudos na compreensão de seus mecanismos. Percebeu-se, posteriormente, que só os sentidos e estudos, a partir de estímulos físicos, não abarcariam o processo perceptivo. Constataram que, de algum modo, neste processo os sentidos eram suplementados pela mente. 

Dessa forma, os estudos empiristas começaram a buscar o modo como a mente, a partir da apreensão, pelos sentidos, do mundo exterior, representa-o em seu interior. Eles diziam que a mente tem um potencial próprio que é a “capacidade associativa e inferencial". Uma leitura atenta de Ordem dos Fantasmas nos leva a conceitos empiristas.


Silvio M. Siqueira