A Loucura em Ordem dos Fantasmas

“A ordem que a natureza quis estabelecer no universo continua sua marcha: a única coisa que se pode dizer é que aquilo que a natureza não conseguiria de nossa razão, ela consegue de nossa loucura”

O que é o louco? Portador de sua enigmática loucura, entre os homens de razão? Como é que se reconhece esse louco que agora deve cobrir com uma máscara uniforme tantos rostos diferentes? 

...a loucura tornou-se tão sutil a ponto de ter perdido toda forma visível e assinalável. Tem-se a impressão de que, através de um efeito distante e derivado do internamento sobre a reflexão, a loucura se retirou de sua antiga presença visível, e tudo aquilo que outrora perfazia sua plenitude real desapareceu, deixando vazio seu lugar e invisíveis suas manifestações certas. Há, na loucura, uma aptidão essencial para imitar a razão que oculta, enfim, o despropósito que nela pode haver. Ou antes: a sabedoria da natureza é tão profunda que ela consegue servir-se da loucura como um outro caminho da razão; torna-a o atalho da sabedoria, evitando suas formas próprias numa invisível previdência:

...É verdade que os dementes, os loucos furiosos, os maníacos ou os violentos podem ser logo reconhecidos: não porque sejam loucos e na medida em que o são, mas apenas porque seu delírio tem um modo particular que acrescenta à essência imperceptível de toda loucura os signos que lhe são próprios... Mas aquém dessas diferenciações, a essência geral da loucura não tem uma forma assinalável; o louco, em geral, não é portador de um signo; mistura-se com os outros e está presente em cada um deles, não para um diálogo ou um conflito com a razão, mas para servi-la obscuramente através de meios inconfessáveis. 

...A loucura é ao mesmo tempo plenitude e ausência total: habita todas as regiões do mundo, não deixa livre nenhuma sabedoria nem ordem alguma, escapando a toda apreensão sensível; está presente em toda parte, mas nunca naquilo que a faz ser o que é.

No entanto, a separação essencial entre sua presença e sua manifestação, não significa que ela se retira, sem nenhuma evidência, para um domínio inacessível onde sua verdade permaneceria oculta. O fato de não ter nem signo certo nem presença positiva faz com que se ofereça paradoxalmente numa imediaticidade sem inquietações, totalmente estendida em sua superfície, sem retorno possível para a dúvida...

...Quanto menos a loucura se manifesta no que ela tem de positivo, mais o louco, sobre a trama contínua da razão — já quase esquecida por ter-se tornado demasiado familiar — surge bruscamente como irrecusável diferença...

... Diferença pura, estranho por excelência, "outro" numa potência dupla, o louco, com esse mesmo recuo, vai tornar-se objeto de análise racional, plenitude oferecida ao conhecimento, percepção evidente; e será isto exatamente na medida em que é aquilo. A partir da primeira metade do século XVIII, e é isto que lhe dá seu peso decisivo na história do desatino — a negatividade moral do louco começa a constituir apenas uma única e mesma coisa com a positividade daquilo que dele se pode conhecer: a distância crítica e patética da recusa, do não-reconhecimento, esse vazio de características torna-se o espaço no qual vão serenamente aflorar as características que aos poucos esboçam uma verdade positiva. E é sem dúvida esse movimento que se pode descobrir sob esta enigmática definição.

“Afastar-se da razão sem o saber, por estar privado de idéias, é ser imbecil; afastar-se da razão, sabendo-o, porque se é escravo de uma paixão violenta, é ser fraco; mas afastar-se da razão com confiança, e com a firme persuasão de estar obedecendo à razão, é o que constitui, a meu ver, o que chamamos de ser louco”.

Estranha definição, tão árida é e tão próxima parece estar da velha tradição filosófica e moral. No entanto, nela encontramos, semi-oculto, todo o movimento que renova a reflexão sobre a loucura...

...O século XVIII percebe o louco, mas deduz a loucura. Ele não percebe a loucura, mas a inextricável presença da razão e da não-razão. Não é a múltipla experiência dos loucos, é o domínio lógico e natural da doença, um campo de racionalidade.

“A definição de uma doença é a enumeração dos sintomas que servem para conhecer seu gênero e sua espécie, e para distingui-la de todas as outras”

...Como poderia a loucura ocupar lugar nesse mundo das doenças cuja verdade se enuncia por si mesma nos fenômenos observáveis, enquanto no mundo concreto ela só se oferece sob seu perfil mais aguçado, o menos suscetível de ser apreendido, isto é, a presença instantânea de um louco, tanto mais percebido como louco na medida em que menos deixa transparecer a verdade aberta da loucura?

O espaço da classificação abre-se sem problemas para a análise da loucura, e a loucura, por sua vez, de imediato ali encontra seu lugar... A inserção da loucura nas nosologias do século XVIII, por mais contraditória que possa parecer, não deve ser posta de lado. Ela tem, com toda certeza, uma significação. E é necessário aceitar como tal — isto é, com tudo que ela diz e tudo que oculta — esta curiosa oposição entre uma consciência perceptiva do louco e um conhecimento discursivo da loucura que comodamente se inscreveria no plano positivo e ordenado de todas as doenças possíveis...

... Nesse novo mundo da patologia, tão desacreditado e ridicularizado desde o século XIX, algo de importante está acontecendo, e sem dúvida pela primeira vez na história da medicina: a explicação teórica se vê coincidir com uma dupla projeção: a do mal, pelo doente, e a da supressão do mal, pelo médico. Todo um mundo de símbolos e imagens está nascendo, no qual o médico vai inaugurar, com seu doente, um primeiro diálogo.

... O louco e a loucura são estranhos um ao outro: cada um deles retém em si sua verdade, como que as confiscando para si mesmos.

...É preciso, peça por peça, analisá-los após a enumeração quase grosseira que deles se pôde fazer: em primeiro lugar, a transcendência da paixão, da imaginação e do delírio, como formas constituintes da loucura... as figuras tradicionais que, ao longo da era clássica, articularam e elaboraram o domínio da loucura, e finalmente o confronto entre o médico e o doente no mundo imaginário da terapêutica...


Nesse conhecimento, a doença mental está enfim presente, e o desatino desaparecem por si mesmo, salvo aos olhos daqueles que se perguntam o que pode significar no mundo moderno essa presença obstinada e repetida de uma loucura necessariamente acompanhada por sua ciência.

Texto do psicólogo Geofilho Ferreira Moraes na integra AQUI.