Marie-Louise Von Franz e Ordem dos Fantasmas



A imaginação ativa faz um jogo de fantasia com substância material
– não pintando uma perola dourada, mas fabricando uma.
E era desse modo que os alquimistas trabalhavam.

Perceba que ao pensar sobre um tema arquetípico ou sobre um cenário arquetípico, tal como os que os que parecem com muita freqüência nos mitos e nos contos de fadas, as pessoas são apanhadas numa armadilha. Elas entram num castelo e a porta se fecha por trás delas, e isso sempre significa que agora estão no self. Agora elas atingiram aquele ponto da sua psique em que não podem mais fugir de si mesmas. Estão agora em maus lençóis e o ego, que sempre acalenta a ideia de escapar do que tem de fazer, sabe-se que agora essas pessoas estão na ratoeira, e que até agora não preencheram as exigências do self, e não serão liberadas.
Alquimia e Imaginação Ativa - Marie-Louise Von Franz - Pag 32

A religião consiste principalmente em certos rituais que têm, em grande parte medida, estatuto físico: totens, refeições, danças e outras atividades, gestos de orações, e assim por diante. Disto, o homem provavelmente nunca se deu conta, pois os rituais são executados exatamente da mesma forma como os dos animais. Estudando o comportamento dos animais sabemos agora que muitos de seus padrões de comportamento não servem a nenhum objetivo utilitário imediato, tal como o da propagação da espécie, o da alimentação, o da sobrevivência. Adolf Portmann explica esses “rituais”, como os chamam atualmente os zoólogos, dizendo que são rituais que expressam significado da existência do animal. Executando-os o animal manifesta seu próprio ser, ou, poder-se-ia dizer, expressa o significado de sua existência sobre a terra, e até mesmo o mais céticos dos zoólogos não consegue descobrir neles qualquer outro propósito prático. Se impedirmos os animais de executar esses rituais, eles adoecem e sua vitalidade diminui, de modo que temos de presumir que até mesmo nesse nível há necessidade de expressar – usemos a expressão de Portmann – o significado da própria existência – sem qualquer outra finalidade prática – e é mais do que provável que os rituais mais arcaicos e mais originais do homem fossem de natureza semelhante. 
Alquimia e Imaginação Ativa - Marie-Louise Von Franz - Pag 95.

Sabemos que, em última análise, todos os conflitos do homem não são criados apenas pela sua, digamos, atitude consciente errônea, mas sim pelo próprio inconsciente, que almeja, com isso, reunir os opostos num nível mais elevado. Portanto, tal situação, em que alguma doutrina, ou ensinamento, ou tradição religiosa é venenosa e destrutiva relativamente a instintividade física do homem, não deve ser vista apenas como uma catástrofe ou como um desvio do padrão original, mas também, em igual medida, como um dispositivo de que lança mão a psique inconsciente para gerar um maior grau de consciência. Entretanto, se isso for longe demais, a pessoa acaba numa situação de divisão e numa tal tensão entre opostos que perde completamente seu equilíbrio interno, e até mesma sua capacidade de sobrevivência. Em tais casos, quando o inconsciente, por assim dizer, criou a divisão, ele posteriormente também produz símbolos que se destinam a estabelecer a reconciliação. O símbolo que mais frequentemente aparece nessas ocasiões é o de um grande ser que cura, uma figura de homem-deus ou figura de salvador, que, mais uma vez, une os opostos, supera a divisão, e instaura uma nova ordem das coisas na qual a instintividade física do homem, suas raízes originais e seu inconsciente reúnem-se novamente numa vivida cooperação, passando a conviver com uma nova visão ou com uma nova ordem das coisas. 

Todos devem parar de comer, somente quando
aquele da cadeira com pele de urso parar”.
(Ordem dos Fantasmas- Pag. 95 Ebook-Pag. 97 Físico)

Originalmente pode-se dizer que ninguém é menos voraz, menos ganancioso, menos desequilibrado, etc., do que os animais e os homens primitivos. O instinto, em sua forma original, transporta em si mesmo a sua própria medida. Os animais muito raramente comem em excesso- talvez cães o façam, e depois vomitam, mas isto geralmente ocorre porque eles já ingressaram nas áreas perturbadas do homem. O homem interferiu em seus hábitos alimentares, em seus ritmos e em seus horários de alimentação; portanto, não tome os animais domésticos como exemplo: eles foram todos arruinados pela nossa influência. Mas os animais que vivem em plena natureza nunca cometem excessos, nem com sexo, nem com comida, nem coisa alguma, pois seus padrões de comportamento sempre impõem a medida adequada e o momento exato de parar. O momento de começar e o momento exato de parar estão ambos, incorporados em seu sistema comportamental, e é por isso que Jung sempre dizia que os animais são muito mais piedosos e religiosos do que o homem, pois eles realmente obedecem à sua ordem interior e seguem à risca o significado daquilo que lhes é destinado ser, nunca indo, além disso. Apenas o homem é capaz de ultrapassar esse limite em tão grande medida.
Alquimia e Imaginação Ativa - Marie-Louise Von Franz - Pag 98