Epopéia Sacra ou Narrativa Iniciática?


Epopeias sacras e mitológicas são aqueles poemas narrativos que têm o prestígio de verdades reveladas; eles fixam a cosmovisão, os valores, as leis e os princípios educacionais que vão orientar os homens e moldar os costumes. As narrativas iniciáticas versam geralmente sobre aspectos ou partes das epopeias sacras, que elas prolongam, ilustram, comentam e especificam, adaptando o fundo da mensagem espiritual à mentalidade e linguagem de uma nova época. Elas revigoram e atualizam certas potencialidades espirituais contidas na revelação, que arriscariam enfraquecer-se à medida que a passagem dos tempos e as mudanças da linguagem que dificultam às novas gerações a compreensão direta da epopeia sacra. A Divina Comédia, de Dante, A Flauta Mágica, de Mozart, o Fausto, de Goethe, a tragédia grega em sua totalidade, Os Lusíadas, de Camões, A Rainha das Fadas, de Spenser; José e seus Irmãos, de Thomas Mann, são narrativas iniciáticas. Os poemas de Homero, o Baghavad-Gita, o Corão, o Antigo Testamento, os Evangelhos, são epopéias sacras.

Mas a diferença fundamental entre epopeia sacra e narrativa iniciática consiste que os heróis da primeira são deuses, semideuses ou, num quadro monoteísta estrito, aspectos de Deus ou forças de origem divina. Os heróis da narrativa iniciática, não possuem poderes divinos nem falam diretamente em nome de Deus, são seres humanos de excepcional envergadura, protegidos ou guiados de perto por forças divinas, cuja presença e atuação no mundo eles representam de maneira mais ou menos sutil e indireta. Entretanto, na epopeia sacra quanto na narrativa iniciática às personagens de ‘mestres’ ou ‘gurus’ representam sempre o Espírito Divino, que conhece tudo de antemão e dirige do alto a caminhada de um discípulo, o qual personifica a ‘alma’ humana em vias de se espiritualizar ou divinizar. A diferença marcante entre os dois gêneros é que, na epopeia sacra, o mestre é o Espírito Divino, de modo literal e integral; ao passo que, na narrativa iniciática, a personagem do mestre é apenas um ser humano ligado a um saber divino; é um sacerdote, um mago, um sábio, ancião...

A narrativa iniciática, embora possuindo leis estruturais que a definem, pode ser mesclada numa infinidade de gêneros narrativos: na literatura novelística, no teatro, na poesia épica ou no cinema. Sua estrutura profunda é compatível com os revestimentos mais diversos, do fantástico ao “realista”. Os únicos elementos indispensáveis são o mestre, o discípulo, o adversário, e as peripécias que purificam a alma do discípulo ou lhe revelam um conhecimento. O adversário pode ser uma pessoa ou uma situação adversa e diabólica que desafia a inteligência do herói ou tenta sua alma. O mestre também pode ser uma personagem de carne e osso, uma alusão mitológica ou um simples aspecto superior da alma do próprio discípulo. O que certifica de estarmos em presença de uma narrativa desse gênero, não é o conteúdo material dos eventos, mas a relação entre as forças, em suma: a estrutura da trama. Os símbolos contidos numa narrativa iniciática devem estar amarrados um aos outros num arranjo orgânico, refletindo uma das principais leis da linguagem simbólica, que é a correspondência entre a parte e o todo, o pequeno e o grande, o micro e o macro.