Imaginação Ativa



Imaginação Ativa é um antigo método de interação com o inconsciente praticado pelos alquimistas que Carl Gustav Jung restaurou e adaptou a psicanálise. 

... “em suas cartas, Jung diz que entrar no sonho e fazer um trabalho de imaginação ativa é a segunda metade da análise e que, sem Imaginação Ativa, ninguém pode jamais tornar-se independente de um psicoterapeuta” (MINDELL, 1989, p. 130). Essa frase testifica de forma clara a importância da Imaginação Ativa (IA) na prática terapêutica, em terapia ou não. Entretanto, é interessante indagar por que o autor afirma que tomar um sonho como origem de uma IA é “a segunda metade da análise”. Ora, pode-se constatar o quanto o sonhador perde sua autonomia na trama do sonho, atuando e tomando decisões de forma totalmente inconsciente. Geralmente é difícil o ego onírico controlar o mais simples dos acontecimentos. A IA é a oportunidade que o indivíduo tem de tomar uma atitude mais ativa frente aos obstáculos que aparecem nos sonhos. O eu tem a oportunidade de mudar suas atitudes dentro do sonho e, o que é mais importante, como um efeito terapêutico vital, mudar também de atitude em sua própria vida desperta. Na medida em que ocorre a interação ativa com os personagens oníricos, ocorre uma ação recíproca com as forças íntimas desconhecidas que, personificadas no sonho, têm grande domínio sobre o eu. Essas forças tornam-se mais conhecidas do indivíduo na IA e, por isso, começa a trilhar o caminho do autodomínio...

Quando efetuada corretamente, cada fantasia ativa – outro nome para a IA – contribui com algum aspecto do nosso autoconhecimento. Quando o sonho é tomado como uma realidade em si, tal como a realidade exterior, e não se procura mudar nenhum aspecto em seu cenário, objetos ou personagens, exceto no relacionamento que o eu tem com eles, está se praticando a verdadeira IA. Isso porque o trabalho interior deve partir da realidade psíquica, do que o indivíduo é, e não do que deseja ser. Os ideais ainda não são condições materializadas e podem apenas, no máximo, encobrir o verdadeiro ser.

Por intermédio dos processos fortuitos do condicionamento social fomos levados a aprender demais algumas poucas características, que agora identificamos como sendo nós mesmos [...], excluímos a porção maior da nossa natureza multidimensional; tornamo-nos unidimensionais” (ROSSI, 1982, p. 24). Um dos principais fatores de condicionamento social que leva a essa identificação é a adoção do nome pessoal. O nome leva o sujeito a pensar sobre si mesmo como sendo certa pessoa e não outra, um in-divíduo (não dividido) e não uma pessoa com vários pensamentos, sentimentos, percepções, emoções, instintos, etc., muitas vezes divergentes. Quando alguém afirma que é “João”, “Maria”, “José” ou “Rafaela”, por exemplo, é levado a pensar que é uma pessoa, e não múltiplas, o que é totalmente ilusório. 

... Qualquer conteúdo reprimido que deixa de ser acessado pelo eu ou que por algum outro motivo não seja “digerido” ou integrado por este ao sistema consciente, perde seu domínio e ganha autonomia. Esse tipo de conteúdo chama-se complexo: um aglomerado de ideias, noções e imagens mantidos unidos por uma emoção comum, que os permeia. Isso constitui a vitalidade (energia psíquica) do complexo que vai para o inconsciente e que antes estava disponível ao eu. Essa energia, como parte do complexo, irá atuar em relação à consciência como um obstáculo “invisível”, que o eu não percebe devido à repressão. O eu, dependendo do nível de vitalidade perdida para o inconsciente, sofrerá certo grau proporcional de indisposição, cansaço, desatenção, falta de concentração, etc. Em parte por esse enfraquecimento do eu, mas também devido ao fortalecimento do inconsciente devido à adição de energia antes pertencente ao lado consciente da personalidade, o complexo “invisível” ao eu poderá gerar esquecimentos espontâneos, acidentes, lapsos de fala e dos sentidos, e vários outros sintomas desagradáveis. Esses são efeitos da autonomia do complexo, que, por isso, gera fantasias, pensamentos, emoções e sentimentos aparentemente irracionais. Os aspectos incompatíveis com o eu, com os quais o indivíduo não se identifica, formam a sombra, um complexo pessoal que abarca as qualidades desprezadas, inadequadas à auto-imagem... 

Robert Johnson diz que fantasia (“phantasía”, no grego) originalmente quer dizer “tornar visível”. Logo, a atividade de fantasiar, isto é, imaginar, está estreitamente ligada à faculdade de tornar visíveis conteúdos invisíveis, inconscientes ao indivíduo...

Por isso, imaginar de forma ativa consiste essencialmente em encontrar imagens e dialogar com elas. Isso envolve o uso de outras funções humanas que não a intelectual, a pensante. Normalmente, essa é a função mais utilizada em determinadas terapias, pois a ênfase é interpretar os sonhos, explicar os sintomas, traduzir os símbolos para a linguagem racional ligada ao hemisfério esquerdo. Na fantasia ativa o indivíduo é chamado a interagir, se relacionar com os diversos aspectos do inconsciente que clamam por atenção no interior do indivíduo...

Na IA é preciso entrar na ação, na aventura ou no conflito cuja história se desenrola na fantasia. O sujeito entra com a parte consciente em interação com o inconsciente. Existe uma confluência de ambas as partes que funcionam juntas para produzir a fantasia ativa, ao contrário da fantasia passiva, onde o indivíduo não se coloca, não se posiciona frente ao conteúdo que insiste em perturbá-lo. Exemplo de fantasia passiva é a preocupação, o medo ou a angústia que aparentemente não têm fundamento, aquela música que insiste em ficar martelando a cabeça, uma ideia que não para de ocorrer, etc. O indivíduo pode ficar cansado, irritado e angustiado de tanto ser perturbado pela fantasia, sem que saiba o que pode fazer para cessá-la. Seu dia a dia, o trabalho, as questões pessoais, podem ficar muito prejudicadas devido a essa interferência. Mal sabe que, se conseguisse acrescentar sua consciência à fantasia passiva na forma de um diálogo com seu conteúdo, tornando-o visível através da imaginação ativa, poderia trabalhá-la, expandindo sua personalidade consciente e ganhando em maturidade...

As fantasias devem ser tratadas de forma literal, isto é, como se fossem a realidade externa, os personagens como se fossem pessoas, o cenário, os objetos, os animais, como se fizessem parte do mundo externo. E de fato, não há nada que contradiga esse tratamento, pois os elementos da imaginação têm sua existência própria, e é puro preconceito não lhes atribuir o valor de algo que existe. Constituem seres e objetos psíquicos, mas isso não lhes tira seu valor intrínseco. Uma crença, por exemplo, é um elemento psíquico que tem direito à existência, embora seu objeto possa não ter realidade material. Porém, a realidade da crença é tão incontestável que, dependendo de seu conjunto doutrinário, pode levar ao assassínio de milhares de pessoas. O critério usado para se admitir a existência de algo não deveria ser sua materialidade, mesmo que abstrata – no caso da beleza, de certos sentimentos, etc., mas sua eficácia, sua capacidade de produzir efeitos, de mudar o estado de seres, objetos ou cenários.

A imaginação ativa deve ser tratada como uma realidade, caso contrário o indivíduo não a estará praticando. Um psicótico pode ter uma alucinação e não saber distinguir entre a realidade externa e o que ocorre internamente. Mas esse é o ponto chave: aquele que pratica a IA está completamente consciente das realidades em que se encontra inserido. Se aparece um personagem que diz algo sem sentido, ele o leva a sério e procurará compreender o que ele quer dizer com isso, questionando-o ainda mais ou guardando a frase para compreensão posterior, pois sabe que tudo na psique tem um sentido, um significado. 

Entretanto, o indivíduo não pode praticar a IA e ao mesmo tempo querer interpretá-la. Se o fizer, irá querer controlá-la e isso não pode ocorrer. O praticante deve procurar controlar unicamente a si mesmo, seus próprios atos dentro da imaginação. A interpretação pode ocorrer apenas após a prática de uma IA ou de uma sequência delas. No entanto, se o praticante faz uma sequência de IA, pode ser que ao contemplar a sequência completa e fazer as conexões entre os diversos símbolos que aparecem, a interpretação ocorra sem muito esforço.

Muitos indivíduos se preocupam com o fato de estarem “inventando” o roteiro da IA, e de não a estarem praticando realmente. Porém, é praticamente impossível produzir qualquer coisa na imaginação que não seja uma representação autêntica de alguma coisa do inconsciente. A função integral da imaginação é trazer o material do inconsciente, vesti-lo com imagens e transmiti-lo à mente consciente... Portanto, a fantasia ativa é realmente uma “invenção” e, como toda invenção, tem sua origem no inconsciente. A verdadeira questão não é se as imagens são autênticas, mas o que se faz com elas... É essa interação real entre o praticante e a imagem que constitui a fantasia ativa, que flui como uma conjunção da consciência e do inconsciente...

Na prática terapêutica e pessoal da IA nota-se como a atitude do indivíduo em relação aos conteúdos do inconsciente muda no dia a dia: ele torna-se mais ativo, mais crítico em relação às antigas fantasias passivas, questionando-as e reafirmando sua posição. Além disso, também ganha em criatividade, pois também passam a ocorrer sugestões espontâneas e insights advindos do inconsciente em relação a ações, soluções de problemas, posturas, julgamentos, etc., ligados a problemas e assuntos cotidianos.

Entretanto, essa separação do ego em relação aos conteúdos do inconsciente será ainda mais produtiva ao se levar em consideração a atitude habitual do indivíduo perante o mundo. Normalmente, se for intelectualmente orientado, tenderá a usar excessivamente palavras, ideias e associações livres durante as IA. 

Para se efetuar uma IA deve-se atentar aos seguintes aspectos: seu registro, o “convite”, o diálogo e a vivência, o elemento ético dos valores e a sua concretização simbólica... O registro das IA é da maior importância, pois agrega substancialidade à fantasia, trazendo a sensação de que houve um acontecimento interno que foi registrado, devidamente materializado em uma folha. Deixar uma IA apenas “na cabeça”, como uma lembrança, também é legá-la ao esquecimento. Sua recordação é muito importante para o entendimento do contexto psíquico do indivíduo. Além disso, seu registro denota a importância que o praticante dá ao trabalho interior e aos conteúdos do inconsciente. O registro pode ser simultâneo: o praticante o faz ao mesmo tempo que vivencia ou conversa com as imagens; ou pode ser tardio: registrar a fantasia ativa de memória. O registro pode ser na forma escrita, falada (gravada), filmada, ilustrada, esculpida, etc. Pessoalmente, prefiro o registro simultâneo e escrito, pois é mais preciso, fluido e intensifica muito a concentração na atividade. O registro simultâneo também não permite que a IA se transforme em fantasia passiva, pois a todo momento a atenção do praticante é requerida, e ao mesmo tempo evita que se pense no significado do que está ocorrendo, o que é crucial para que não haja controle das imagens...

Outro aspecto essencial da IA é o “convite”, que consiste na invocação de alguma figura do inconsciente. O convite consiste na disponibilidade do praticante em perceber o que o inconsciente tem para lhe mostrar ou falar, sem expectativas ou pré-condições. Consiste em se estar disposto a interagir com qualquer figura que surgir, por mais desagradável que possa parecer, em ser um bom anfitrião para acolher o que um dia foi expulso, esquecido ou que ainda não surgiu e é novo. Pode-se iniciar uma IA a partir de uma emoção incômoda ou insistente, de um sonho, ou pode-se ir até um certo lugar na imaginação para se encontrar com determinada figura de interesse do indivíduo... 

Para Jung “o mais importante é diferenciar o consciente do conteúdo do inconsciente. É necessário, por assim dizer, isolar esses últimos, e o modo mais fácil de fazê-lo é personificá-los, estabelecendo depois, a partir da consciência, um contato com essas personagens. Apenas dessa maneira é possível diminuir-lhes a potência, sem o que irão exercer seu poder sobre o consciente”. Com isso se forma uma nova identidade, uma percepção de si mesmo muito mais ampla e abrangente, capaz de adaptação às mais variadas situações.

Por fim, a IA pode ser encerrada com uma simples despedida ou um protocolo pessoal: ir a um portal, vestir uma roupa, fazer certo gesto, etc. Uma forma padrão de se despedir do inconsciente valoriza-o e fecha o processo de forma padrão, encerrando-o oficialmente. Isso evita que a imaginação continue após o processo, transformando-se em fantasia passiva.

Robert Johnson recomenda que se crie um ritual para cada IA ou sequência de IA após o processo. O ritual torna a fantasia ativa mais concreta e fornece maior discernimento, estendendo a vivência para outras percepções dos sentidos. Ao mesmo tempo, o ritual representa outro nível de resposta ao inconsciente. Ritualizar uma IA é dizer ao inconsciente que sua mensagem foi compreendida, é mais uma vez valorizá-lo, levá-lo a sério e reafirmar sua existência para o praticante. A reafirmação da existência do inconsciente pelo eu é uma forma de evitar que ele se faça perceber de modo inconveniente. Para ser eficaz, o ritual deve representar o conteúdo da vivência da IA. É um conjunto de ações do indivíduo no mundo externo que representa o que ele vivenciou na imaginação...

Existem muitos exemplos artísticos de uso da imaginação ativa. Livros como “A divina comédia” de Dante, “Fausto” de Goethe, e o Zarathustra de Nietzsche foram, muito provavelmente, imaginações ativas originais trabalhadas estilisticamente mais tarde. Filmes como “Alice no país das maravilhas”, “Paixões paralelas”, “A origem”, “O labirinto do fauno”,e “Avatar” e estórias sobre Peter Pan, Pinóquio, etc., são exemplos fascinantes de fantasias ativas, mesmo que alguns assumam a forma de sonhos, com grande aproveitamento para o autoconhecimento dos praticantes...

Um exemplo de aplicação do princípio da IA à própria vida é o cultivo que Fernando Pessoa fez através de sua literatura. Ele conseguiu levar as várias instâncias de sua psique a sério personificando estilos diferentes de escritores, aos quais dava voz através das poesias que escrevia. Ao invés de experimentar conflitos internos através das pessoas com quem convivia, exprimia sua fragmentação pela arte, mesmo correndo o risco de ser encarado como louco. Assim, pode-se dizer que é possível viver aspectos não experimentados através de vivências simbólicas, principalmente através da imaginação ativa. Então, quando se está devidamente preparado, quando o ego for forte e estruturado o suficiente, a imaginação ativa é uma alternativa inteiramente válida aos indivíduos ansiosos por autoconhecimento.

Texto de Charles Alberto Resende

Original: AQUI