O louco e a Flauta Mágica em Ordem dos Fantasmas


Em Ordem dos Fantasmas, no sanatório, o protagonista pergunta: "...Será verdade aquilo que ouço? Ou será apenas uma ilusão?". Na opera A Flauta Mágica o personagem Tamino, pergunta: “É verdade aquilo que vejo? Ou será apenas ilusão?” 


Ao traçar essa conexão com a ópera, Eucajus completa a metáfora que ilustra o arcano “O Louco” do tarô:

- Quer saber se sou alguém que vai entendê-lo.

- O senhor é esse alguém?

- O Doutor Charles disse o nome e você o mandou embora.

- Ele latia como um cão.

- Prometo que vou ouvi-lo com ouvidos de Baudelaire.

- Essa música... Toca todas as manhãs. Será verdade aquilo que ouço? Ou será apenas uma ilusão?

- Naín gosta de Mozart?

- Gosto da história.

- O que há de engraçado na história de Schikaneder?

- Na história, nada. Sua gravata...

- Minha gravata engraçada. Gosta de borboleta?

- É radicalmente literal. Gostei!


Observe a imagem do ‘cão’ e da 'borboleta' na carta do tarô.


Em muitos baralhos de Tarô, O Louco aparece com um cão mordiscando-o, como se quisesse comunicar-lhe alguma coisa. O animal parece estar avisando o companheiro de um perigo iminente. De qualquer maneira, O Louco se acha em tão estreito contato com o seu lado instintivo que não precisa olhar para onde vai, sua natureza primitiva guia-lhe os passos. 

- O Doutor Charles disse o nome e você o mandou embora.

- Ele latia como um cão.

- Prometo que vou ouvi-lo com ouvidos de Baudelaire.

Referência clara ao poeta Charles Baudelaire e ao seu poema O cão e o frasco, um dos textos mais importantes do livro Spleen de Paris, o poema sem dúvida é um ato de voluntária provocação, com imenso prazer em desagradar o gosto das multidões e a “era da reprodutibilidade técnica” denominada por Walter Benjamin, o que justifica a promessa de ouvi-lo com ouvidos de Baudelaire

Pois, O Louco é o mais poderoso de todos os Trunfos do Tarô. Como não tem número fixo, está livre para viajar à vontade, perturbando a ordem estabelecida. 

- Essa música... Toca todas as manhãs. Será verdade aquilo que ouço? Ou será apenas uma ilusão?

- Naín gosta de Mozart?

A melodia da Flauta Mágica, tocada por Tamino, encanta os bons, põe os maus a dançar. Seu efeito produz uma conjunção de forças positivas do espírito humano, luminosas e propícias ao pleno entendimento das coisas, no pólo oposto ao Mal e ao não-saber. 

- Gosto da história.

- O que há de engraçado na história de Schikaneder?

- Na história, nada. Sua gravata...

A magia está a serviço do racional, e a sua melodia ressoa no templo venerável de uma ordem meio leiga, meio religiosa, a maçonaria, à qual Mozart e Emmanuel Schikaneder estavam ligados. Esse ‘louco’ sabe muito bem o que o leitor de Ordem dos Fantasmas deveria saber: a flauta mágica fora talhada numa noite mágica pelo pai de Pamina que arrancara o pedaço de madeira duma velha árvore, associe isso ao maior presente de uma mãe... sim, vida. Esse louco vai falar da Árvore da Vida.

Muitas ambigüidades do Louco arquetípico são ilustradas nesse texto introdução da narrativa: a ânsia por liberdade e novas descobertas, seguir o ímpeto interno de avançar, quer seja numa ideia, tendência, filosofia, projeto que lhe pareça irresistível. Daí sua cabeça virada para o alto com o gorro amarelo, cor da intuição e da criatividade. Sua pequena trouxa representa o seu pouco apego às experiências do passado. O que o bom senso ou os outros disseram, o que os livros postulam, pouco importa! A descoberta por si mesmo é a grande meta. As regras sociais, representadas aqui pelo cão, uns dos primeiros animais domesticados pelo homem, não o inibem. O Louco é o símbolo da irreverência e da ousadia que encontramos em Ordem dos Fantasmas

McGlashan diz que o homem precisa voltar às suas raízes, pessoais e raciais, e aprender novamente os poderes da imaginação. E nessa empreitada a criança e o louco serão nossos guias, a criança que mal entrou no mundo racional do tempo e do espaço, e o louco, que escapou dele.


Patrício Camelo