Por que uma sessão de Analise?



É a Psicanálise que toma a si a tarefa de falar do homem enquanto ser singular, enquanto subjetividade, cindida em dois grandes sistemas: o inconsciente e o pré-consciente/consciente. O sujeito não é mais o dono do conhecimento e da verdade, como propunha Descartes, mas o sujeito do desejo. Desejo que mantém uma relação não com um objeto real, mas com um fantasma, pois o objeto do desejo é da ordem do simbólico. 


A palavra símbolo vem do grego – symbolon – e designa aquilo que, por um princípio de analogia, representa ou substitui outra coisa. 

Lacan afirma que o desejo se realiza no plano do imaginário; isto é, o autor constrói seu projeto de ego tomando como referência a imagem do outro – o outro é que aprova ou reprova seus desejos de autor. O ingresso na ordem simbólica (na linguagem) torna a palavra mais importante que o objeto. A palavra não é uma representação da coisa, ela é a própria coisa.

O instrumento de linguagem é a chave para a interpretação do discurso do inconsciente na psicanálise, que no caso da psicose, flui livremente para o real, através de seu modo específico de funcionamento, cujos mecanismos básicos são a metonímia e a metáfora. Portanto, as psicoses seriam resultantes de defeitos na capacidade integradora do ego, manifestações de sua limitação para neutralizar as energias instintivas. Na psicose, as funções essenciais do ego, de contenção, de equilíbrio e de adaptação se encontrariam prejudicadas e as defesas utilizadas pelo doente seriam mais primitivas e desorganizadas.

O significante permanece, mas isolado de suas relações com o significado. Permanece apenas sua imagem visual e auditiva (a palavra) que passa para o real (fantasmático e alucinatório do psicótico) tal qual é. O fracasso desse recalque primário leva o psicótico a não distinguir entre significante e significado e, destarte, a não usar adequadamente a linguagem. Já, o fracasso do recalque originário produz no psicótico a incerteza quanto à sua individualidade, levando-o a confundir-se com a coisa, ou com o nome da coisa. 

O signo, o significado e principalmente o significante são termos que Jacques Lacan utilizou para demonstrar como o inconsciente é estruturado como linguagem. O significado é o conceito, ou seja, uma ideia, aquilo que podemos abrir o dicionário e encontrar. O significante é uma imagem acústica, é a junção de letras mais o som que essas letras produzem. Um conceito vai sempre remeter a uma imagem acústica e vice-versa. Apesar da relação que um significado tem com um significante o signo é regido pela arbitrariedade, ou seja, ele não tem lei. A palavra vai indicar a coisa que ela representa.

Lacan da prioridade ao significante sobre o significado, porque o inconsciente se interessa pelo significante muito mais do que pelo significado. Porque o inconsciente não se interessa pela definição do dicionário, como no exemplo árvore, que no dicionário é um vegetal de tronco lenhoso cujos ramos saem a curta altura do solo. Para o inconsciente o significante árvore remete ao sujeito, a uma árvore de uma cena da infância onde ocorreram situações fortes da vida do sujeito. Em uma análise o que se trata não é a articulação do significante árvore com seu significado, como fazia Saussure na Lingüística, mas trata-se de da articulação do significante árvore com outro significante.

Você deve estar pensando, o significante é aquilo que eu interpreto? Não, não é! O significante é apenas o som da palavra esvaziado de sentido, como uma palavra estrangeira desconhecida ou nome próprio que, embora designe, nada significa. Se não se conhece ninguém que responda por aquele nome próprio, esse nome próprio não é mais do que um som de uma palavra.

Na psicose a simbolização e o processo de subjetivação ficam profundamente comprometidos. O sujeito vive pelo e no outro, preso na alienação imaginária, na relação dual com o objeto primário. O psicótico está fora do seu corpo e do mundo. A sua dependência do outro é interna, estrutural. A cadeia de significantes reveste-se de intransitividade, de uma significação incompleta. O psicótico sofre da falta de plenitude, da falta de referências integradoras e asseguradoras do seu próprio corpo, do seu eu, da sua identidade. 

Na sua comunicação e na forma de se relacionar com o mundo, o psicótico, usa de forma radicalmente diferente o signo lingüístico – que assume formas diversas, conforme as diferentes patologias. O delirante fala de si, como se falasse de um outro, descentra ego e subjetividade, vê-se como coisa, objeto. A única via de comunicação que lhe resta é a do imaginário, a da relação dual: eu e o outro somos um só.