Simbolismo da Árvore


O caminho iniciático não é uma particularidade do universo místico/religioso, mas é uma configuração presente em todo processo humano de desenvolvimento pessoal. Por essa razão que o uso de determinadas imagens simbólicas é recorrente nas mais diversas culturas. Símbolos que são universalmente aceitos e podem ser encontrados nas mais diversas culturas, alguns se associam ao nosso desejo de transcender, como as montanhas; outros expressam nossa luta cotidiana no plano da existência material, como a espada; outros traduzem a nossa interdependência do mundo físico, como a caverna; e há aqueles que visam simbolizar a interação dinâmica entre esses vários níveis da experiência, a Árvore é o principal deles.

A Árvore como um símbolo sagrado é encontrada em várias culturas humanas e nas mais diversas épocas de nossa história. A Árvore representa a estrutura do universo, sendo que seus galhos simbolizam a conexão com as dimensões superiores da existência, ao passo que a raiz evoca a nossa vinculação com os aspectos mais primitivos e funcionais de nossas vidas. Da mesma forma, as múltiplas dimensões da Árvore e seus frutos representam os atributos positivos do eterno. A Árvore Sagrada faz parte da tradição de povos tão distintos quanto Maias, Escandinavos, Chineses, Maoris, Africanos e Hebreus.

Em nossa maneira de tentar explicar a nossa própria existência em suas diferentes dimensões, conferimos às experiências vividas valores distintos, em função basicamente das sensações e sentimentos desencadeados por cada um dos eventos que experienciamos. Um dos recursos simbólicos que utilizamos para eternizar uma experiência e dar-lhe significado é a metáfora espacial, ela implica na distribuição dos eventos no espaço geográfico de forma que sua função esteja associada a um determinado local/região do nosso campo de percepção/ação. A Metáfora Espacial revela a força que as dimensões espaciais possuem em nossa interpretação do mundo, assim como pode nos ajudar a entender suas conotações arquetípicas. Os conceitos de “acima” e “abaixo”, por exemplo, possuem numerosas associações conotativas que tem um caráter universal. Acreditamos que nosso padrão de vida está “caindo” ou “subindo”, que nossas chances “foram pelo ralo” ou que atingimos “o topo”.

Na Mitologia, nos Contos de fadas e nas Religiões encontramos imagens que reportam ao espaço geográfico do alto como sendo símbolo de ascensão física e/u espiritual, em paralelo, os lugares subterrâneos como cavernas, poços e minas estarão associados às idéias tristes como morte, queda e todo tipo de perda. Mesmo quando características muito humanas são encontradas em Deuses do alto, isso é colocado de forma lúdica, jocosa, ao passo que nos Deuses dos subterrâneos essas características são mostradas de forma destrutiva e agressiva. Também é nos subterrâneos que habitam criaturas monstruosas e primitivas como ogros e dragões, e todo a sorte de seres rastejantes, venenosos e mortais, ao passo que grande parte dos seres míticos/mitológicos tidos como superiores apresentam alguma habilidade de vôo, que muitas vezes pode ou não ser representada por asas, ou qualquer outro tipo de deslocamento que independa do contato com o solo.

Dessa forma, objetos e estruturas verticais geralmente simbolizam níveis superiores e/ou inferiores da experiência, a existência e do ser, e a Árvore Sagrada é um dos símbolos humanos que apresenta essa estrutura. 

Assim como podemos também ver na Árvore da Vida dos cabalistas, cujas raízes estão em Malkut, ou Reino e o topo em Kether ou a Coroa, a Árvore como símbolo arquetípico indica uma conexão entre os mundos superiores e inferiores. Tal conexão se torna possível através do tronco que podemos ascender da raiz à copa, do mundo material ao mundo espiritual. 

A necessidade do tronco para se atingir a copa da árvore, fala-nos de algo muito próprio do caminho iniciático, que é a idéia de que o processo de iluminação não implica na eliminação de nossa porção animal, física, material, mas na integração desta ao movimento dinâmico da existência, de forma que isso nos permita usar essa energia telúrica, terrena, para nosso próprio crescimento. 

A partir dessa concepção talvez seja mais fácil compreender o fascínio infantil por “trepar” em árvores, exercício único que nos permite colher o fruto do próprio esforço1

*Texto de: Angelita Viana Corrêa Scárdua - Psicóloga Clínica; Mestre em Psicologia Social pela USP (SP); Especialista em Abordagem Junguiana; em Neurociências e Comportamento.