Sobre a teoria do Nove Desconhecido


A sincronicidade é um conceito empírico que surge para tentar dar conta daquilo que foge à explicação causal. Jung diz que “a ligação entre os acontecimentos, em determinadas circunstâncias, pode ser de natureza diferente da ligação causal e exige outro princípio de explicação” 

Ao longo de sua obra, Jung deu várias definições ao conceito de sincronicidade, vou pontuar alguns relacionados com a Teoria dos Nove Desconhecido construída em Ordem dos Fantasmas

“... coincidência, no tempo, de dois ou vários eventos, sem relação causal mas com o mesmo conteúdo significativo.” (CW VIII, par.849)

“... a simultaneidade de um estado psíquico com um ou vários acontecimentos que aparecem como paralelo significativo de um estado subjetivo momentâneo...” (CW VIII, par. 850)

“...um só e o mesmo significado (transcendente) pode manifestar-se simultaneamente na psique humana e na ordem de um acontecimento externo e independente.” (CW VIII, par.905)

“um caso especial de organização causal geral.” (CW VIII, par.955)

“coincidência significativa de dois ou mais acontecimentos, em que se trata de algo mais do que uma probabilidade de acasos.” (CW VIII, par. 959)

“o princípio da causalidade nos afirma que a conexão entre a causa e o efeito é uma conexão necessária... Na sincronicidade os termos de uma coincidência significativa são ligados pela simultaneidade e pelo significado”. (CW VIII, par. 906)

Jung também definiu três categorias de sincronicidade:

1. Coincidência de um estado psíquico com um evento externo objetivo simultâneo.

2. Coincidência de um estado psíquico com um evento externo simultâneo mas distante no espaço.

3. Coincidência de um estado psíquico com um evento externo distante no tempo.

Através da definição destas categorias, podemos perceber que nos fenômenos sincronísticos, o tempo e o espaço são relativos, isto é, o fenômeno acontece independente destes. Basicamente o que define a sincronicidade são a coincidência e o significado.

Jung observou que tais coincidências ocorrem principalmente quando um arquétipo está constelado. O arquétipos são fatores psicóides que possuem uma transgressividade pois “não se acham de maneira certa e exclusiva na esfera psíquica, mas podem ocorrer também em circunstâncias não psíquicas.” (CW VIII, par. 954)

Jung propõe que o princípio de sincronicidade seja acrescentado à tríade espaço, tempo e causalidade, dizendo que “o espaço, o tempo e a causalidade, a tríade da Física clássica, seriam complementados pelo fator sincronicidade, convertendo-se em um quaternário que vai tornar possível um julgamento da totalidade”(CW VIII, par. 951). Sua definição de sincronicidade em sentido estrito diferencia de uma visão mais abrangente de ordenação causal. Os fenômenos sincronísticos em sentido são “atos de criação” no tempo que incluem a priori as propriedades dos números inteiros.

O cálculo é o método mais apropriado para se tratar do acaso, pois o número é misterioso, nunca foi despojado de sua aura numinosa. O fato do número ser o elemento ordenador mais primitivo do espírito humano, o instrumento indicado para criar a ordem ou para apreender uma certa regularidade já presente, mas ainda desconhecida, isto é, um certo ordenamento entre as coisas. Por isso Jung chegou a chamar o número de “o arquétipo da ordem que se tornou consciente” e cita a estrutura matemática das mandalas, produtos espontâneos do inconsciente para chegar à conclusão de que “o inconsciente emprega o número como fator ordenador”. (CW VIII, par.870) Um exemplo clássico é Tao, a concepção chinesa da realidade, em grande parte sincronística.

Antigamente não se pensava em sincronicidade porque não se pensava em acaso. Tudo era atribuído a uma causalidade mágica que hoje nos parece ingênua. Mas essa ideia de uma sincronicidade e de um significado subsistente à natureza, que é à base do pensamento chinês teve que ser retomada pela psicologia moderna uma vez que só o princípio da causalidade não explica toda a realidade dos acontecimentos.

Pelo fato do significado ser subjetivo, como podemos saber se não estamos fantasiando um significado quando na realidade ele não existe? Tudo o que diz respeito a fenômenos arquetípicos tem uma “lógica” de asserção que Jung chama de “necessary statements” (“afirmações necessárias”). Estas não são criadas pelo ego, são “impostas” pelo arquétipo e são esperadas sempre que um arquétipo está constelado, como é o caso dos eventos sincronísticos, nos dando um parâmetro para saber se o evento é mesmo significativo ou não.

JUNG E SINCRONICIDADE: O CONCEITO E SUAS ARMADILHAS
O CONCEITO DE SINCRONICIDADE
Letícia Capriotti