Walter Benjamin em Ordem dos Fantasmas


Para Benjamin o “narrador” autêntico, é caracterizado como o narrador épico, enraizado na longa tradição da memória oral e popular, o que lhe permite colocar por escrito e contar aventuras representativas de experiências das quais todos os ouvintes/leitores podem compartilhar numa linguagem comum. 

Quando tempo se torna uma grandeza econômica, quando se trata de ganhar e, portanto, de poupar tempo, a memória também se transforma. O espaço infinito da memória coletiva comum encolhe, dividindo-se em lembranças avulsas de histórias particulares contadas por um escritor isolado e lidas por um leitor solitário. Alguns lamentam o desaparecimento das formas tradicionais de contar, o desaparecimento das lembranças compartilhadas e de uma memória coletiva, o desaparecimento da escuta paciente e respeitosa dos anciões. O desenvolvimento capitalista e técnico contemporâneo torna ilusória qualquer volta a essas formas de lembranças e de narração. Trata-se do encurtamento da percepção temporal, uma espécie de narcisismo do presente que corre atrás de novidades que rapidamente evaporam.

A prática psicanalítica na narrativa em Ordem dos Fantasmas é naturalmente associado à dinâmica de lembrar e esquecer em termos narrativos de fala e de escuta. A memória se converte em meio de iluminação recíproca entre o passado e um presente concebido como limiar possível de transformação estética e existencial. Não é por acaso que Eucajus cita Em Busca do Tempo Perdido, obra de Marcel Proust que é um modelo da relação passado e memória.

A memória como faculdade psíquica e fisiológica é, portanto, uma capacidade paradoxal, complexa, talvez contraditória; ela recebe imagens, é afetada por imagens sem que as tenha necessariamente buscado, uma espécie de capacidade passiva por assim dizer; mas ela também pesquisa, investiga, examina, interroga, sendo então uma capacidade de intensa atividade. Não se trata de tentar alcançar uma lembrança exata de um momento do passado, como se esse fosse uma substância imutável, mas de estar atento às ressonâncias que se produzem entre passado e presente, entre presente e passado, aquilo que Benjamin chama de “experiência” com o passado; a ideia é salvar do passado não uma imagem eterna, mas uma imagem mais verdadeira e frágil, uma imagem involuntária ou inconsciente, no sentido de um elemento soterrado sob o hábito, esquecido e negligenciado. Esse momento não dura mais que um relâmpago, mas desencadeia uma avalanche de lembranças involuntárias, que podem ser associadas ou não. Essa experiência só se constitui quando os fatos sedimentados de maneira inconsciente na memória são mobilizados por algum acontecimento do presente, revelando assim um novo e amplo campo de significação.

Segundo Benjamin, essa forma de experiência guarda semelhanças com o trabalho artesanal, naquilo que diz respeito às suas condições de realização. Em ambos, o tempo segue o ritmo da mão, da respiração. E não distingue o passado como algo encerrado, fechado a novas interpretações.

- Então, porque está aqui?

- Por mim.

- Uma opção pessoal que sinaliza desejos sociais! Neste caso, que tipo de pecinha vai ser?

- De artesanato!.. (Ordem dos Fantasmas – *Digital Pág.64 – *Papel Pág. 66)

No trabalho artesanal cada ato é uma camada que agrega valor ou que carrega em si o valor do todo, também a experiência pode ser entendida como uma sedimentação lenta de várias experiências que mesmo distantes temporalmente, são atuais, na medida em que se fazem presentes a todo instante. Nos dois casos, o tempo é visto como algo que estabelece continuidade e constrói, diferentemente do tempo moderno administrado pelo tique-taque do relógio.

- ...Quanto à situação ser assustadora, saiba que após o homem inventar o relógio para controlar o tempo, somente uma coisa assusta a humanidade.

- Que coisa?

- A realidade!

- Por quê?

- Porque na realidade, o relógio nos controla... (Ordem dos Fantasmas – *Digital Pág.87 – *Papel Pág. 89)

Se na sociedade capitalista são raras as experiências nesse sentido, predominando a experiência - vivência que gera o homem desmemoriado, que age pelo sistema de estímulo-resposta, se assemelhando a figura do autômato. Para Benjamin, essa situação exige que arte exerça uma nova função na sociedade mediante uma nova atitude do espectador diante das obras, caracterizada pelo posicionamento ativo da crítica e conscientização, função que ele defini como “um olhar político”. 

A chave para compreensão desse olhar pode ser encontrada nos poetas, que são videntes e interpretes de sinais que deflagram poderosas “forças” ocultas no mundo das coisas.

Fã nº01