Para um leitor diluído.



Em Falei com Da Vinci, a razão e o sentido fazem morada na imprevisibilidade e nos desvios, uma vez que o personagem está na história como quem se procura, não como quem já se encontrou.

Sua leitura é um ‘exercício de escuta’, o que justifica e dá sentido ao texto análogo ao da psicanálise, pois se manifesta num enredo que desdobra seus pressupostos e subentendidos, construindo um imaginário oculto, sob a própria literalidade do texto.

É uma narrativa que “procede da liberdade” de escolha, na perspectiva sobre o significado, respeitando certos requisitos formais, como a busca da coerência interna ou a eliminação das contradições entre os conceitos. Portanto, o leitor não deve rejeitar esses fundamentos, abrindo-se à fecundidade operatória de seus dispositivos experimentais.

O contato com essas possibilidades de interpretação, pode aguçar o espírito crítico do leitor, dando-lhe uma visão muito mais rica do seu próprio mundo, das várias maneiras pelas quais ele pode equacionar ou questionar um dilema.

O leitor deve introduzir-se na experiência inaugural do estranhamento, na experiência do desenraizamento, na experiência da curiosidade, das possibilidades e ambiguidades, colocando o universo da comunicação generalizada entre parênteses, aceitando a experiência estética, que reconhece na palavra o poder de “abrir o mundo” para um sujeito distante, diluído ou difuso. Um sujeito que seja ausência, que seja uma atitude do pensamento ou talvez, um "eu" fantasma.

Prof. Carol Figueiredo